segunda-feira, 2 de julho de 2012

19 de fevereiro de 2009 – 03h13min


Todos dormindo, menos a Carmina que deve estar pela noite ainda. ‘O trabalho é árduo e diário’, ela sempre diz. Precisa juntar grana o suficiente para a cirurgia. Sei que se não fosse por nós ela já teria conseguido o dinheiro necessário... É, Carmina virou nossa mãe de rua. Estou sentado aqui na frente do Congresso Nacional. É bom ver isso aqui às três da manhã, quando não tá lotado de morcegóides, é um lugar bonito mesmo. Ainda estou sem cigarro, então o que posso fazer é simplesmente viajar nos sons da madrugada. Alguns carros, algumas motos... Mendigos bêbados. Sons desse tipo realmente me relaxam, não sei porquê. “Adivinha quem é?” Uma voz conhecida acaba de soar em meus ouvidos, tão melódica quanto o grito da pobreza - ‘QUERO MAAAIS, QUERO CACHAÇA PRA ESQUECER MEU AMOOR!’ – As mãos frias tampando meus olhos... Mas o que diabos ela estava fazendo ali? “Estou sonhando acordado?” Pergunto num sorriso idiota, porque só poderia ser um sonho, né? “Não, não haha, estou de volta!” Ani então aparece na minha frente, com as mesmas roupas de antes, o mesmo cabelo desgrenhado, o mesmo sorriso ingênuo. “O... O quê...?” Eu não sei se estou feliz, ou se estou indignado. Quer dizer, eu nunca sei o que sentir ou falar quando estou perto desse pitoco de gente. Enfurecido? Acho que é isso, estou enfurecido. Já estou de pé, incomodado, desnaturado! “QUAL O SEU PROBLEMA?” Eu pergunto, desajustado. “O meu problem...” “O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI? A GENTE TAVA BEM, SABIA? A GENTE TAVA MUITO BEM! VAI EMBORA!” “HAHAHA Você não quer que eu vá embora...” “CALA A BOCA!” Não é possível que eu esteja chorando. Malditas lágrimas! Eu não sou fraco, não estou chorando! “Você me ama...” “CALA A MALDITA BOCA!” “Eu posso te ajudar, sabia?” Eu paro, olho para Ani, aquela coisinha pequena. “Meu aniversário está chegando... Vou fazer dezesseis.” “Ah, que bom, e como isso pode me ajudar?” “Sabe quem agora é Presidente do Senado?” “O Sarney?” “Uhum... Tomou posse dia 2 desse mês. Antes disso ele foi Senador pelo Amapá – ainda é, inclusive - , Governador do Maranhão e também, pasme, Presidente.” O que diabos ela tanto falava do Sarney? “Tá, e daí?” Ela ri, como se o que ela dissesse fosse realmente óbvio. “Imagina... O Sarney aqui, ó... Daí BOOM!” Ahn? Só eu não acompanhei o raciocínio? Não sei se é meu ódio, minha frustração, mas aquilo estava muito confuso. “Explodir o Sarney! Pensa!” Arregalo os olhos... Explodir o Sarney? “HAHAHA AH TÁ, e como você pretende fazer isso?” Ela deitou na grama, encarando o céu. “Voltei para pedir ajuda a um dos únicos grupos punks que realmente querem mudança nessa droga.” Fiquei encarando Ani. Para uma menina de quinze anos – quase dezesseis – ela até que tinha ideias boas... Talvez não muito executáveis, mas inteligentes em algum sentido. “E isso é só o começo... Só pra assustar.” De fato, de fato, inteligente... Um tanto maníaca, mas inteligente. Minhas lágrimas agora estão secando sozinhas... Ah! Como eu a odeio!