Todos dormindo, menos a Carmina que deve estar
pela noite ainda. ‘O trabalho é árduo e diário’, ela sempre diz. Precisa juntar
grana o suficiente para a cirurgia. Sei que se não fosse por nós ela já teria
conseguido o dinheiro necessário... É, Carmina virou nossa mãe de rua. Estou
sentado aqui na frente do Congresso Nacional. É bom ver isso aqui às três da
manhã, quando não tá lotado de morcegóides, é um lugar bonito mesmo. Ainda
estou sem cigarro, então o que posso fazer é simplesmente viajar nos sons da
madrugada. Alguns carros, algumas motos... Mendigos bêbados. Sons desse tipo
realmente me relaxam, não sei porquê. “Adivinha quem é?” Uma voz conhecida
acaba de soar em meus ouvidos, tão melódica quanto o grito da pobreza - ‘QUERO
MAAAIS, QUERO CACHAÇA PRA ESQUECER MEU AMOOR!’ – As mãos frias tampando meus
olhos... Mas o que diabos ela estava fazendo ali? “Estou sonhando acordado?”
Pergunto num sorriso idiota, porque só poderia ser um sonho, né? “Não, não
haha, estou de volta!” Ani então aparece na minha frente, com as mesmas roupas
de antes, o mesmo cabelo desgrenhado, o mesmo sorriso ingênuo. “O... O quê...?”
Eu não sei se estou feliz, ou se estou indignado. Quer dizer, eu nunca sei o
que sentir ou falar quando estou perto desse pitoco de gente. Enfurecido? Acho
que é isso, estou enfurecido. Já estou de pé, incomodado, desnaturado! “QUAL O
SEU PROBLEMA?” Eu pergunto, desajustado. “O meu problem...” “O QUE VOCÊ TÁ
FAZENDO AQUI? A GENTE TAVA BEM, SABIA? A GENTE TAVA MUITO BEM! VAI EMBORA!” “HAHAHA
Você não quer que eu vá embora...” “CALA A BOCA!” Não é possível que eu esteja
chorando. Malditas lágrimas! Eu não sou fraco, não estou chorando! “Você me
ama...” “CALA A MALDITA BOCA!” “Eu posso te ajudar, sabia?” Eu paro, olho para
Ani, aquela coisinha pequena. “Meu aniversário está chegando... Vou fazer
dezesseis.” “Ah, que bom, e como isso pode me ajudar?” “Sabe quem agora é
Presidente do Senado?” “O Sarney?” “Uhum... Tomou posse dia 2 desse mês. Antes
disso ele foi Senador pelo Amapá – ainda é, inclusive - , Governador do
Maranhão e também, pasme, Presidente.” O que diabos ela tanto falava do Sarney?
“Tá, e daí?” Ela ri, como se o que ela dissesse fosse realmente óbvio. “Imagina...
O Sarney aqui, ó... Daí BOOM!” Ahn? Só eu não acompanhei o raciocínio? Não sei
se é meu ódio, minha frustração, mas aquilo estava muito confuso. “Explodir o
Sarney! Pensa!” Arregalo os olhos... Explodir o Sarney? “HAHAHA AH TÁ, e como
você pretende fazer isso?” Ela deitou na grama, encarando o céu. “Voltei para
pedir ajuda a um dos únicos grupos punks que realmente querem mudança nessa
droga.” Fiquei encarando Ani. Para uma menina de quinze anos – quase dezesseis –
ela até que tinha ideias boas... Talvez não muito executáveis, mas inteligentes
em algum sentido. “E isso é só o começo... Só pra assustar.” De fato, de fato,
inteligente... Um tanto maníaca, mas inteligente. Minhas lágrimas agora estão
secando sozinhas... Ah! Como eu a odeio!