domingo, 11 de novembro de 2012

Vigésimo primeiro dia, quarto mês, ano 2009 – Próximo às oito e meia da noite.


Aqui está uma merda... Tirei folga para comemorar o aniversário da minha cidade linda, mas só o que vejo é um bando de idiotas bebendo, vomitando e mijando nos ministérios. Claro que eu já sabia, né? Todo ano é a mesma porcaria! A galera bem, fode com tudo, e vai embora. É uma celebração pelo aniversário de Brasília e esses imbecis só fazem sujeira. A programação é sempre o dia inteiro, esse ano tá rolando umas paradas bizarras e, cara, a Xuxa tá no palco. Quer dizer... Que porra é essa?! Mas okay, sem problema, estou aqui curtindo de boas. – Vei, mas que porra a Xuxa tá fazendo no palco? – O Japa tá me perguntando, ele acabou de voltar do mercadinho mais próximo. Tá com as vodkas e os cigarros. A maconha ficou por conta da Benki que ainda não apareceu... – Cara, não sei. – Chuto um poste pra tirar um pouco da poeira do meu coturno, mas desisto logo. Nego tá mesmo pulando com ilarilariê? Acendo um cigarro, trago e solto a fumaça pelo nariz. – Meu, tu tá muito branco... – Dou de ombros. – Tô ligado. – Benki aparece finalmente, tropeçando nos próprios pés, pra variar. – Para de beber, sua puta. – Eu falo, bolando o beck. Ela ri alto e vai se encostando no Japa, falando alguma coisa no ouvido dele que não sei o que é. Ele a empurra. – Arrombada do inferno. – Os dois riem, se beijando. Essa mina é mais rodada que tudo, mas é feliz. A minissaia de couro colada, a meia arrastão e o all star preto surrado me lembram um pouco a vadiagem de antigamente. Sei lá, eu curti muito esse estilo, antes da heroína. – Remo! – É a Ani, está há poucos passos de mim, vou até ela. Deixei a maconha com o Japa, então tá de boa. – Que é? – Pergunto, tragando mais do meu cigarro. Marlboro vermelho. – A gente podia trepar hoje, né? – Ela fala no meu ouvido, as mãos no meu quadril. Ani está com uma saia de couro também, a mesma meia arrastão de Benki, uma camisa regata, rasgada de um jeito que dá pra ver seu sutiã preto. – Não. – Falo pra ela, sorrindo e lambendo seu ouvido. – FILHO DA PUTA! – Ela grita, e agora está correndo atrás de mim. Haha, odeia quando lambem a orelha dela. Tropeço em alguma coisa e quando vejo é um gordo de seus vinte anos, me encarando com um olhar retardado de que está “indignado”. – Ou, filho da puta, tá doido? – Ele me fala, se levantando. Quase da minha altura, talvez uns três centímetros mais baixo. – Eu que te pergunto, seu merda. Tá fazendo o quê deitado no chão? – Ani desaparece. O cara se aproxima e me empurra. Filho da puta. – Tu é mongol? – Pergunto empurrando ele de volta. Ani aparece com o Japa, o Koda, a Benki e a Carmina. Pepê aparece logo mais de outro canto. – Filho da puta... – Ele vem com o punho fechado, logo sinto meu olho esquerdo latejando. Fecho meus punhos e caio e cima do cara. Cada soco é um ódio profundo saindo de mim. Aguentei muita coisa por muito tempo, saca? – Punk de merda!! – Um cara grita atrás de mim, e não entendo muito bem o que está acontecendo, mas ouço o Japa falar – MERDA É ESSA SUA CARA! – E logo mais vejo, na minha frente, Pepê socando um pagodeiro. Koda deu um gole na vodka e entregou pra Benki, que deu outro gole e largou a garrafa nas mãos da Ani. Para nós, isso é normal... Todo ano tem algo parecido. Normalmente quem arranjava encrenca era o Alex, não eu. Mas como ele não está... Ani parece apavorada. Benki está esmurrando um cara que tá tentando socar o Koda, mas acaba de levar um empurrão desse mesmo cara. É tudo muito confuso... Ani começa a gritar. – OS PORCOS, OS PORCOS!! – Merda, só o que me faltava. A porcalhada tava se aproximando, ao longe. Eu e os outros desferimos os últimos socos contra os filhos da puta e saímos correndo, Ani logo na frente. Eu estava com saudade desse tipo de coisa, a verdade é essa. Quebrar a cara de um imbecil daqueles durante o aniversário de Brasília é quase um ritual. Paramos agora, na frente do palco. A Xuxa ainda tá cantando... – XUXAAAAAA, EU TE AMOOOOOOO! – A Benki grita, mandando beijo pro palco, e logo cai na gargalhada. Todos nós caímos na gargalhada. Ani parece meio aflita. – Toma, putinha... Pra ficar melhor. – Koda acende o beck e entrega pra Ani, que puxa com vontade. Isso é divertido... – ESTAMOS TODOS BÊBADOOSS DE CAIIIRRR... – Carmina diz, engolindo a vodka como água. Risadas, risadas... Benki agora ri e chora ao mesmo tempo. – Que saudade do Alex, Japa... – Ela fala, se esfregando no menino. Ani fuma seu cigarro, não mais se incluindo na rodinha do beck. Não é que não está mais uma merda? E a gente se diverte... Entre sangue e álcool, a gente se diverte.