Eu estou bem. Tenho que largar essa porcaria de
heroína, vai acabar me matando... Estou agora na rodoviária, sentado e fumando
um cigarro, esperando a Isa. Ela disse que viria me ver, não esqueci disso. –
Rômulo? – Levanto a cabeça, encarando o rosto conhecido de Isa, sorrio para
ela. – Aqui todo mundo me conhece como Remo... – O recado eu tinha recebido da
Benki, ela estava bêbada dizendo que uma menina tinha passado aqui quando eu
estava apagado e queria me ver hoje. Não sei nem como ela conseguiu passar essa
mensagem, mas tudo bem! Levanto-me e abro os braços. Ela continua um tanto
menor que eu, e o abraço dela continua o mais macio. Ofereço um cigarro, ela
recusa. – Não gosto desse. – E pega o Lucky Strike vermelho da bolsa,
acendendo-o. Ela está linda... Como sempre. – Estou morando sozinha, sabia? –
Estamos caminhando agora, lado a lado. Que saudade que eu estava disso! – É?
Aonde? – Pergunto, sorrindo, observando-a, deliciando-me com a sua presença. –
Numa quitinete na Asa Norte. – Ela está indo muito bem, mesmo... Sempre a achei
com um potencial fora do comum. – Por que não mora comigo? – Eu paro e a
encaro, meio perplexo. Como assim morar com ela? – Tá doida? – Eu rio, colocando
meu braço sobre seu ombro magrinho e frágil. – Não... Meu lugar é ali. – Falo apontando
para a BNB. – Você não pode viver nessa ilusão-punk-revolucionária para sempre,
Rômulo. – Ela insiste em me chamar de Rômulo, e eu tiro meu braço de por sobre
seu ombro. Reviro os olhos. Ela nunca vai entender? – Beleza! Nós,
iludidos-punks-revolucionários, temos uma surpresa para vocês, acomodados. –
Ela me encara, ofendida. Odeio essa expressão que ela faz. – Volto daqui uns
dias, vou te deixar pensar, ok? – Ela agora encara meu braço, todo picado. Está
ficando vermelha... – E LARGA ESSA PORCARIA, OUVIU? – Ela puxa meu braço,
apontando para minha veia. – ME SOLTA. – O QUE ELA QUER? ARRANCAR MEU BRAÇO
FORA? Solto a mão dela e ainda dá pra ver onde ela segurou. Talvez esse
encontro não tenha sido uma boa ideia, não agora. – VOLTO QUANDO VOCÊ CRIAR
BOLAS! – Ela gritou de longe, me dando dedo. Dou de volta, e sigo para a BNB.
Ani está sentada em um dos bancos, e observa eu me aproximando. – Que é? – Pergunto.
Eu estou puto, estou sim. MUITO PUTO, NA REAL. VAI SE FODER, A MINA VEM PRA
DIZER QUE O QUE EU TO FAZENDO É UMA MERDA SEM NOÇÃO?? – Lembra do plano do
Sarney? – Ani me encara, desconfiada. – Lembro. – Eu me sento ao seu lado. –
Vamos botar em prática? – Eu preciso mostrar à Isa que isso é sério!! Muito
sério! – Claro. – Ela sorri, mas não parece tão animada. Levanta-se e começa a
andar em direção à rodoviária. – Aonde você vai? – Pergunto, sem entender. –
Fazer compras.
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