quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Vigésimo terceiro dia, quarto mês, ano 2009 – Uma da tarde.


Eu estou bem. Tenho que largar essa porcaria de heroína, vai acabar me matando... Estou agora na rodoviária, sentado e fumando um cigarro, esperando a Isa. Ela disse que viria me ver, não esqueci disso. – Rômulo? – Levanto a cabeça, encarando o rosto conhecido de Isa, sorrio para ela. – Aqui todo mundo me conhece como Remo... – O recado eu tinha recebido da Benki, ela estava bêbada dizendo que uma menina tinha passado aqui quando eu estava apagado e queria me ver hoje. Não sei nem como ela conseguiu passar essa mensagem, mas tudo bem! Levanto-me e abro os braços. Ela continua um tanto menor que eu, e o abraço dela continua o mais macio. Ofereço um cigarro, ela recusa. – Não gosto desse. – E pega o Lucky Strike vermelho da bolsa, acendendo-o. Ela está linda... Como sempre. – Estou morando sozinha, sabia? – Estamos caminhando agora, lado a lado. Que saudade que eu estava disso! – É? Aonde? – Pergunto, sorrindo, observando-a, deliciando-me com a sua presença. – Numa quitinete na Asa Norte. – Ela está indo muito bem, mesmo... Sempre a achei com um potencial fora do comum. – Por que não mora comigo? – Eu paro e a encaro, meio perplexo. Como assim morar com ela? – Tá doida? – Eu rio, colocando meu braço sobre seu ombro magrinho e frágil. – Não... Meu lugar é ali. – Falo apontando para a BNB. – Você não pode viver nessa ilusão-punk-revolucionária para sempre, Rômulo. – Ela insiste em me chamar de Rômulo, e eu tiro meu braço de por sobre seu ombro. Reviro os olhos. Ela nunca vai entender? – Beleza! Nós, iludidos-punks-revolucionários, temos uma surpresa para vocês, acomodados. – Ela me encara, ofendida. Odeio essa expressão que ela faz. – Volto daqui uns dias, vou te deixar pensar, ok? – Ela agora encara meu braço, todo picado. Está ficando vermelha... – E LARGA ESSA PORCARIA, OUVIU? – Ela puxa meu braço, apontando para minha veia. – ME SOLTA. – O QUE ELA QUER? ARRANCAR MEU BRAÇO FORA? Solto a mão dela e ainda dá pra ver onde ela segurou. Talvez esse encontro não tenha sido uma boa ideia, não agora. – VOLTO QUANDO VOCÊ CRIAR BOLAS! – Ela gritou de longe, me dando dedo. Dou de volta, e sigo para a BNB. Ani está sentada em um dos bancos, e observa eu me aproximando. – Que é? – Pergunto. Eu estou puto, estou sim. MUITO PUTO, NA REAL. VAI SE FODER, A MINA VEM PRA DIZER QUE O QUE EU TO FAZENDO É UMA MERDA SEM NOÇÃO?? – Lembra do plano do Sarney? – Ani me encara, desconfiada. – Lembro. – Eu me sento ao seu lado. – Vamos botar em prática? – Eu preciso mostrar à Isa que isso é sério!! Muito sério! – Claro. – Ela sorri, mas não parece tão animada. Levanta-se e começa a andar em direção à rodoviária. – Aonde você vai? – Pergunto, sem entender. – Fazer compras. 

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