Há quatro dias que Ani não aparece... Ela foi
embora com aquele veadinho tatuado e largou a vida dura. Bom saber, bom mesmo.
Estranho que ela parecia uma mina muito mais forte do que acabou demonstrando.
Ah, sei lá, talvez ela seja, né? De qualquer forma, o Remo pareceu não estar
muito contente com isso, ele acaba externando mais que os outros. “Porra, ela me
trocou por um bostinha de tatuagem, saca?” Ele diz enquanto treme, puxando a
tripa de mico improvisada com a boca. “Meu, na boa, acho que você tem que parar
com essa merda, vai acabar te matando.” Eu sei lá, pode até fazer bem no
momento e tal, mas a heroína além de ser cara pra caralho e estar quase em
extinção, faz mal pra porra, já vimos uns amigos morrendo com essa coisa, saca?
Ele olha pra mim agora com um sorriso irônico, dizendo mais que suas
palavras... “Vai tomar no cu.” E injeta. A cara que ele faz é de puro prazer,
um prazer alucinante. Sei bem, sei bem. Vai ficar assim por uma meia hora e eu
não quero ficar assistindo isso. Carmina disse que ia na rodoviária, precisava
arranjar algo pra comer, nosso dinheiro já acabou. Acho que vou dar uma passada
lá, não tenho muito o que fazer e sinto falta de conversar com ela. Sempre que
estou sozinho assim acabo pensando demais no futuro, e que sou da geração sem
futuro. Sem futuro sim, não faço nada, saí da escola, larguei tudo pra morar e
aprender a me virar. Tudo à prova! É assim que se vive, se colocando em
extremos. Pelo menos eu acho que é assim... Passo sempre por momentos muito
escrotos, mas e daí? Eu não me arrependo de nada do que fiz, sei que um dia
farei algo grande, e estou seguindo no caminho certo, tenho certeza. “Carmina?”
Ela se virou, assustada. “Puta que pariu, você me deu um susto, guri.” A voz
afeminada, mas ainda assim grave. Eu rio, divertido, ela sempre me anima “E aí,
minha bela transexual, como estás hoje?” Ela revira os olhos, para variar “Eu
não sou transexual ainda, lembra? Ainda tenho um pinto.” Eu sempre esqueço
dessa merda, mas tudo bem, não me importo porque para mim ela já é uma mulher,
e sempre foi. “Tudo bem, tudo bem, perdão. Sabe, ando um pouco chateado.”
Carmina consente, sorridente “Eu sei, tá se sentindo trocado, ahn?” Como?
Trocado? “Ein?” “É, ué... A menina foi embora e você gosta dela...” “Ah.”
Merda, odeio o fato de Carmina saber de tudo. “Não gosto não, ela era só mais
uma bundinha bonita. Tenho a Benki, afinal.” Ela dá de ombros, rindo
brincalhona... Odeio quando ela faz isso, dando um ar de superioridade, é
detestável! Já falei pra ela, mas parece que não me escuta, porra. “Vai se
foder! Você sabe muito bem que não me apaixono. Eu sou apaixonado pela causa,
lembra? PELA CAUSA!” Ela riu ainda mais alto. “Ah, pobrezinho... Eu te disse,
lembra? Um dia se renderia aos encantos do amor. Se não fosse por mim, seria
por outra mulher.” “Cala a boca, Carmina, vai chupar uma rola!” Saio puto da vida,
odeio quando ela faz isso, só deu tempo de ouví-la gritando “Vou fazer
exatamente isso, NÃO SE PREOCUPE, MEU BEM!” Filha da puta! FILHA DUMA PUTA! É o
que ela é, por isso que virou puta também. Não estou chorando, não estou. Eu
vou ser alguém ainda, vou conseguir mudar essa bosta, todo mundo vai ver! Não
me apaixono, nunca me deixei levar por uma coisa tão estúpida e não deixarei
agora. Benki é só divertimento e Ani... Bem, Ani é só mais uma bobinha que
achei que acreditava no mesmo que eu, mas estava enganado. Burguesinha mimada
do caralho, isso sim. O jeito agora é ler um pouco mais e esperar Carmina-linda
voltar com o dinheiro do rabo, estou precisando de cigarro e o meu acabou ontem...
Não me aguento, não aguento isso, não aguento mais não fazer nada, tá na hora
de começar a revolta.
sábado, 16 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
14 de fevereiro de 2009 – 14h01min.
Eu e Remo voltamos a nos falar direito, o que é
bom sim, bastante. Tenho evitado contato visual com Ani desde que fiquei
sabendo que ela tinha terminado com ele. Não quero encrenca, e estou feliz com
meu amigo... Mas falta sim, eu não me sinto bem de verdade e, sei lá, eu acho
ela uma gracinha. Mas não, agora estou com a Benki... Beijo, abraço, faço
cafuné e transo quando quero. Ela é fofa também, só é difícil quando ela bebe,
o que não é raro. A gente tá com oito garrafas de vodka roubadas, bebendo com
amor. É, sim sim, com amor... Beber deixa todo mundo meio amoroso. Até mesmo os
que ficam violentos, é uma violência apaixonada. Estamos rindo, menos Ani,
reparei que ela tá meio pra baixo. Isso não importa muito, né? Não pra mim...
Pelo menos não devia. O Japa tá no meio da roda, mais bêbado que os outros. “THIRSTY
AND MISERABLE ALWAYS WANTING MOOORE” ele grita, numa voz forçada. “Olha só, olha só, sou o Cadena!” e
voltava a cantar terrivelmente mal. “HAHAHAHAHA, Acho que aí era o Reyes, não?”
ouvi o Remo dizendo, Japa deu de ombros e cantava mais, batendo cabeça e
pulando no meio da roda. Eu levantei e fui pular com ele. A gente se batia,
cotovelada e joelhada, só de brincadeira mesmo, tava divertido. Subiram mais o
Remo, o Pepê e o Koda, todo mundo se batendo loucamente enquanto cantava sem
instrumentos de fundo músicas aleatórias do Black Flag, Against Me!, Sin Dios e
Adolescents. É bom o suor escorrendo. Choveu muito nos últimos dois dias, mas
hoje ainda não caiu uma gota, pelo menos não na Esplanada. As meninas riam
loucamente, e os que passavam por ali estranhavam e ameaçavam chamar os porcos.
Ah, malditos... Ninguém aqui precisava de problema com a polícia, sabe? Paramos
depois de dois minutos, todos rindo e caindo no chão, com a anarquia ainda
fluindo. Dei mais uns goles e de repente uma voz atrás de mim “Mônica?” Ani
estava encarando quem quer que tenha dito isso, meio estática. Olhei para trás
e tinha um cara alto, meio magro assim, cabelo pintado e tatuagens na perna e
nos braços. “Você deve estar me confundindo com alguém.” O cara lá riu e
balançou a cabeça “Nah, é você sim, Mônica. Sumiu, ein?” Eu não tava entendendo
porra nenhuma, levantei e fiquei de frente para ele, mais ou menos da minha
altura. “Cara, não tá vendo que não é ela? Sai daqui, porra, não enche.” Ele
simplesmente se desviou de mim e foi até ela “Ô garota, você é idiota?” Deu um
chute de leve nela, pra chamar a atenção... Ani levantou de súbito, meio puta
da vida. “Olha aqui, Mateus, vai embora, tá? Isso não tem nada a ver contigo.”
Ele riu, riu de tipo deboche mesmo. “Ai ai, coisa, foi porque não te comi?” Vi
as bochechas da pequena ficando vermelhas e ela puxou o cara pelo braço. Remo
me encarava, parecia um pouco atacado com alguma atitude minha, só percebi que
ele estava de pé também quando Ani e seu amiguinho se afastaram. O cara parecia
implicar com ela de alguma forma, debochando, ela agora parecia rir... Os dois
foram se afastando. Coisa esquisita, estranha mesmo. Mônica? Koda começou a
rir, aquela figura estranha de cabelo azul, o rosto redondo ficava vermelho
quando ele ria... É algo engraçado de se ver, comecei a rir por isso. “MÔNICA?
HAHAHAH O nome da Ani é Mônica?!” Ele ria de rolar no chão, aquele chão imundo.
Benki ria deliberadamente também, demonstrando o quanto não gostava de Ani – ou
melhor, Mônica. “Cara...” eu rio também, não sei, é engraçado mesmo. Nunca
conseguiria imaginar que o nome dela fosse Mônica! Remo se retirou, meio
emputecido. Não entendi. Achei melhor não o seguir. Estamos rindo aqui agora:
Eu, Benki, Koda, Pepê, Japa e Carmina. Essa última apenas sorria divertida,
como se soubesse mais que a gente.
domingo, 3 de junho de 2012
11 de fevereiro de 2009 – 09h22min.
Benki está deitada aqui, ao meu lado, sorrindo como boba enquanto eu acaricio seus cabelos coloridos. Ontem eu decidi que não deixaria Ani interferir na minha vida, porque eu a conheço há pouco mais de um mês e ela já conseguiu me afastar do meu melhor amigo. Quando cheguei ontem na nossa “casa”, Benki estava chorando como um bebê, abraçada num ursinho de pelúcia que ela trouxe com ela quando apareceu por aqui. Ela disse que tinha muita saudade dos pais dela e do irmãozinho, que depois do acidente ela largou tudo para não ter que lembrar deles, só tinha trazido o ursinho porque era do irmão e quando ele tinha três anos falou pra ela que era pra ela cuidar pra sempre do Lupito (o nome do ursinho). Eu a abracei, beijei sua testa, depois sua bochecha... Acabamos nos beijando e depois fazendo o que os românticos chamam de “amor”. O sexo em si foi bom, foi sim. Ela parecia querer isso há tempos, ou ela queria apenas um pouco do meu carinho que eu nunca quis dar. Só era estranho porque estando assim com ela, fazendo carinho, eu só conseguia lembrar daquele beijo que Ani me deu três dias atrás. “Tenho que levantar.” Minha cabeça dói um pouco, levanto um pouco cambaleante e sorrio para Benki, curvando-me para dar-lhe um beijo. Ela sorri e volta a dormir, e eu vou andando em direção à Catedral, obviamente. No meio do caminho deparo-me com Remo, sentado meio escondido ao lado do Museu. “Cara, você tá bem?” Pergunto aproximando-me um tanto preocupado, ele tá com uma cara meio lerda, bem jogado assim, o braço estendido e uma agulha enfiada na veia. “E aí, cara...” Ele me responde, bem mansinho. Remo se pica tem uns cinco meses, ele diz que o pico é melhor que fumar crack. Eu concordo, não detona os neurônios tão rápido, só que é mais caro assim, ele tem que fazer uns esquemas pra conseguir a grana. Quando eu cheirava (porque eu piquei uma vez só, depois só cheirei) fazia os esquemas também. A Carmina vai com ele, ela que nos arranjou pro trampo na época. Trampo pesado mesmo, saca? “Remo, vei, você tem que largar essa vida, na boa...” Ele só se ajeitou um pouco, tirando a agulha e dobrando o braço, tombando a cabeça pro outro lado e agora diz, murcho de tudo, “Só fico bem assim, cara, vem aqui, senta comigo um pouco...” Daqui a pouco ele levanta e parte pra outra, pra ele é bom, faz bem, né? “A Ani terminou comigo, cara...” Isso foi um toque meio forte, saca? Olhei para ele, ele riu. “Mano, nem deu tempo de comer aquela bundinha.” Eu ri com ele, mas sei que ele não é assim, só fala pra zoar comigo, pra se fingir de quem está bem. Ele tá triste mesmo, mesmo. Sentimental demais, é difícil pro Remo aguentar essas coisas. Mas ele supera... “Estou indo lá pra Catedral, bora?” Ele fez que sim com a cabeça e se levantou, pronto pra outra. “Bora sim.” O braço apoiado no meu ombro, quase um abraço, e a gente vai. Eu me sinto meio errado com ele, meio culpado, eu que o trouxe junto quando fugi de casa. Bem de início éramos só eu e ele... Um mundo de brigas e revoluções da cabeça, lendo sobre anarquismo feito loucos, largamos a escola com treze anos, fugindo de casa. Éramos além da idade. Não dá nem pra acreditar que moramos na rua tem sete anos. Pra comer a gente fazia a volta da Rodoviária, era triste, saíamos chorando quase sempre, com três reais por volta. Três reais dos pedo... Mas a gente continuou firme, tínhamos um ao outro e era isso aí. A culpa é minha, é sim, eu não deveria tê-lo trazido junto. Briguei tanto com ele, já ficamos sem nos falar por quatro meses uma época, voltamos depois de conhecer a coca. Sorriso cúmplice da droga. Agora estamos na Catedral, como há sete anos, ajoelhados e rezando, ele chora, eu choro junto. É tudo uma grande merda, né?
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