Benki está deitada aqui, ao meu lado, sorrindo como boba enquanto eu acaricio seus cabelos coloridos. Ontem eu decidi que não deixaria Ani interferir na minha vida, porque eu a conheço há pouco mais de um mês e ela já conseguiu me afastar do meu melhor amigo. Quando cheguei ontem na nossa “casa”, Benki estava chorando como um bebê, abraçada num ursinho de pelúcia que ela trouxe com ela quando apareceu por aqui. Ela disse que tinha muita saudade dos pais dela e do irmãozinho, que depois do acidente ela largou tudo para não ter que lembrar deles, só tinha trazido o ursinho porque era do irmão e quando ele tinha três anos falou pra ela que era pra ela cuidar pra sempre do Lupito (o nome do ursinho). Eu a abracei, beijei sua testa, depois sua bochecha... Acabamos nos beijando e depois fazendo o que os românticos chamam de “amor”. O sexo em si foi bom, foi sim. Ela parecia querer isso há tempos, ou ela queria apenas um pouco do meu carinho que eu nunca quis dar. Só era estranho porque estando assim com ela, fazendo carinho, eu só conseguia lembrar daquele beijo que Ani me deu três dias atrás. “Tenho que levantar.” Minha cabeça dói um pouco, levanto um pouco cambaleante e sorrio para Benki, curvando-me para dar-lhe um beijo. Ela sorri e volta a dormir, e eu vou andando em direção à Catedral, obviamente. No meio do caminho deparo-me com Remo, sentado meio escondido ao lado do Museu. “Cara, você tá bem?” Pergunto aproximando-me um tanto preocupado, ele tá com uma cara meio lerda, bem jogado assim, o braço estendido e uma agulha enfiada na veia. “E aí, cara...” Ele me responde, bem mansinho. Remo se pica tem uns cinco meses, ele diz que o pico é melhor que fumar crack. Eu concordo, não detona os neurônios tão rápido, só que é mais caro assim, ele tem que fazer uns esquemas pra conseguir a grana. Quando eu cheirava (porque eu piquei uma vez só, depois só cheirei) fazia os esquemas também. A Carmina vai com ele, ela que nos arranjou pro trampo na época. Trampo pesado mesmo, saca? “Remo, vei, você tem que largar essa vida, na boa...” Ele só se ajeitou um pouco, tirando a agulha e dobrando o braço, tombando a cabeça pro outro lado e agora diz, murcho de tudo, “Só fico bem assim, cara, vem aqui, senta comigo um pouco...” Daqui a pouco ele levanta e parte pra outra, pra ele é bom, faz bem, né? “A Ani terminou comigo, cara...” Isso foi um toque meio forte, saca? Olhei para ele, ele riu. “Mano, nem deu tempo de comer aquela bundinha.” Eu ri com ele, mas sei que ele não é assim, só fala pra zoar comigo, pra se fingir de quem está bem. Ele tá triste mesmo, mesmo. Sentimental demais, é difícil pro Remo aguentar essas coisas. Mas ele supera... “Estou indo lá pra Catedral, bora?” Ele fez que sim com a cabeça e se levantou, pronto pra outra. “Bora sim.” O braço apoiado no meu ombro, quase um abraço, e a gente vai. Eu me sinto meio errado com ele, meio culpado, eu que o trouxe junto quando fugi de casa. Bem de início éramos só eu e ele... Um mundo de brigas e revoluções da cabeça, lendo sobre anarquismo feito loucos, largamos a escola com treze anos, fugindo de casa. Éramos além da idade. Não dá nem pra acreditar que moramos na rua tem sete anos. Pra comer a gente fazia a volta da Rodoviária, era triste, saíamos chorando quase sempre, com três reais por volta. Três reais dos pedo... Mas a gente continuou firme, tínhamos um ao outro e era isso aí. A culpa é minha, é sim, eu não deveria tê-lo trazido junto. Briguei tanto com ele, já ficamos sem nos falar por quatro meses uma época, voltamos depois de conhecer a coca. Sorriso cúmplice da droga. Agora estamos na Catedral, como há sete anos, ajoelhados e rezando, ele chora, eu choro junto. É tudo uma grande merda, né?
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