Os últimos dois dias têm sido realmente muito
estranhos. Tenho andado mais com a Benki, resolvi dar uma chance a ela, não
sei. Depois daquilo com a Ani, eu não consigo olhar muito na cara do Remo, ele
sempre abraça ela na minha frente, beija aquela boquinha vermelha... Não, não,
eu não gosto muito de ficar perto dos dois. O problema é que essa menina sempre
vem atrás de mim quando saio sozinho para minhas leituras. É, eu leio bastante,
leio sobre muitas coisas mesmo... Mas principalmente sobre ensaios anarquistas.
Ah! Enfim. O caso é que ela sempre vem atrás, pega um caminho diferente e se
encontra comigo. E agora eu estou aqui, atrás do Ministério da Cultura, lendo
“Deus e o Estado” de Bakunin. Engraçada essa ideia toda, sabe? Deus e Estado
como duas entidades que nos privam da liberdade. Deus não era justamente o ser
libertador? Eu acredito em Deus, acredito nesse ser onipotente, onipresente e
onisciente que está em tudo e todos, não acredito é na Igreja. De qualquer
forma, a visão de Bakunin interessou-me bastante, e cá estou eu. “O que está
lendo?” perguntou aquela voz já conhecida, aninhando-se no meu ouvido, na minha
mente. “Não te interessa.” Eu sou meio bruto, sou sim... Mas sabe? É meio
irritante você estar lendo e vir alguém te encher o saco, ainda mais nessa
situação específica em que me meteram sem eu querer. “Se não interessasse eu
não estaria perguntan...” “Caralho, guria, sai daqui, por favor?” Quase jogo o
livro na cabeça da Ani, não quero problemas, não mesmo, principalmente com o
Remo. Ela agora está me encarando, parece meio triste, estou começando a me
sentir culpado... Ah, filha da puta! Odeio quem faz essa carinha de cachorro
sem dono. “Não vou cair nessa...” Falei, e ela ficando manhosa, começando a
sorrir de lado e, pra variar, chegando mais perto. A menina é toda sapeca
mesmo, uma menininha. “Quantos anos você tem, criatura?” “Dezoito.” Eu não
acreditei nela, ri bem irônico e perguntei de novo “Quantos anos você tem?”
“Quinze...” Eu ri de novo “Como uma menina dessa idade acha que pode me
manipular desse jeito?” Ela estranhou e já foi pra trás, cruzando os braços “Como
assim?” Eu levantei agora, tou bem puto mesmo, quem ela pensa que é? Ela não
pode agir assim comigo! “Sério, vai embora! Eu não te aguento mais! Se gosta de
mim, por que não tá comigo? Por que tá com o Remo?” Ela me olha, meio
impressionada, como se nunca esperasse ouvir isso de mim, e agora se levanta
também. Pequenininha, bate no meu peito. “Porque... Porque nada me garante que
se eu largá-lo, você vai ficar comigo. E eu gosto dele! Gosto muito mesmo... Eu
sei que sou sua, mas eu gosto muito dele. Entende?” O ódio está subindo agora,
meu punho está clamando para socar alguma coisa, e como não fui educado para
bater em garotas, soco a parede. “Não entendo porra nenhuma.” Vou pra Catedral,
ficar aqui discutindo merda com essa coisinha não vai adiantar nada, e eu posso
muito bem esquecer tudo, ficar quieto no meu canto. Não é? Ainda ouço ela
gritar meu nome, mas não ligo! Quero esquecer... Não quero isso agora, não
mesmo. Estou pensando em coisas mais importantes, uma revolução! Mas uma
revolução que dê certo, que fique pra história como o início do Anarquismo! Vou
orar um pouco, apesar de não acreditar na Igreja, estar lá me dá uma energia
positiva, não preciso de missa nem nada, só do lugar. Do lugar e da minha fé,
que para quem vê de fora não existe, mas é grande, e eu sei que se Deus está lá
vai perceber que a humanidade dessa sociedade poderia ser muito maior num meio
mais natural, num meio sem Estado, sem poder.
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