quinta-feira, 31 de maio de 2012

10 de fevereiro de 2009 – 16h05min.


Os últimos dois dias têm sido realmente muito estranhos. Tenho andado mais com a Benki, resolvi dar uma chance a ela, não sei. Depois daquilo com a Ani, eu não consigo olhar muito na cara do Remo, ele sempre abraça ela na minha frente, beija aquela boquinha vermelha... Não, não, eu não gosto muito de ficar perto dos dois. O problema é que essa menina sempre vem atrás de mim quando saio sozinho para minhas leituras. É, eu leio bastante, leio sobre muitas coisas mesmo... Mas principalmente sobre ensaios anarquistas. Ah! Enfim. O caso é que ela sempre vem atrás, pega um caminho diferente e se encontra comigo. E agora eu estou aqui, atrás do Ministério da Cultura, lendo “Deus e o Estado” de Bakunin. Engraçada essa ideia toda, sabe? Deus e Estado como duas entidades que nos privam da liberdade. Deus não era justamente o ser libertador? Eu acredito em Deus, acredito nesse ser onipotente, onipresente e onisciente que está em tudo e todos, não acredito é na Igreja. De qualquer forma, a visão de Bakunin interessou-me bastante, e cá estou eu. “O que está lendo?” perguntou aquela voz já conhecida, aninhando-se no meu ouvido, na minha mente. “Não te interessa.” Eu sou meio bruto, sou sim... Mas sabe? É meio irritante você estar lendo e vir alguém te encher o saco, ainda mais nessa situação específica em que me meteram sem eu querer. “Se não interessasse eu não estaria perguntan...” “Caralho, guria, sai daqui, por favor?” Quase jogo o livro na cabeça da Ani, não quero problemas, não mesmo, principalmente com o Remo. Ela agora está me encarando, parece meio triste, estou começando a me sentir culpado... Ah, filha da puta! Odeio quem faz essa carinha de cachorro sem dono. “Não vou cair nessa...” Falei, e ela ficando manhosa, começando a sorrir de lado e, pra variar, chegando mais perto. A menina é toda sapeca mesmo, uma menininha. “Quantos anos você tem, criatura?” “Dezoito.” Eu não acreditei nela, ri bem irônico e perguntei de novo “Quantos anos você tem?” “Quinze...” Eu ri de novo “Como uma menina dessa idade acha que pode me manipular desse jeito?” Ela estranhou e já foi pra trás, cruzando os braços “Como assim?” Eu levantei agora, tou bem puto mesmo, quem ela pensa que é? Ela não pode agir assim comigo! “Sério, vai embora! Eu não te aguento mais! Se gosta de mim, por que não tá comigo? Por que tá com o Remo?” Ela me olha, meio impressionada, como se nunca esperasse ouvir isso de mim, e agora se levanta também. Pequenininha, bate no meu peito. “Porque... Porque nada me garante que se eu largá-lo, você vai ficar comigo. E eu gosto dele! Gosto muito mesmo... Eu sei que sou sua, mas eu gosto muito dele. Entende?” O ódio está subindo agora, meu punho está clamando para socar alguma coisa, e como não fui educado para bater em garotas, soco a parede. “Não entendo porra nenhuma.” Vou pra Catedral, ficar aqui discutindo merda com essa coisinha não vai adiantar nada, e eu posso muito bem esquecer tudo, ficar quieto no meu canto. Não é? Ainda ouço ela gritar meu nome, mas não ligo! Quero esquecer... Não quero isso agora, não mesmo. Estou pensando em coisas mais importantes, uma revolução! Mas uma revolução que dê certo, que fique pra história como o início do Anarquismo! Vou orar um pouco, apesar de não acreditar na Igreja, estar lá me dá uma energia positiva, não preciso de missa nem nada, só do lugar. Do lugar e da minha fé, que para quem vê de fora não existe, mas é grande, e eu sei que se Deus está lá vai perceber que a humanidade dessa sociedade poderia ser muito maior num meio mais natural, num meio sem Estado, sem poder.

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