- Você tem que largar as drogas,
sabia? – Reviro os olhos, fumando um cigarro enquanto encaro Ani discursando
novamente sobre isso de ser um junkie idiota. – Ani, vai cuidar da sua vida. –
Bato as cinzas no gramado da Esplanada. Estamos sentados aqui, entre o
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e o M.T.E.. Daqui
oito dias será o aniversário de Brasília, já tá tendo propaganda em tudo quanto
é canto. Novinha, não vai fazer nem 50 anos (isso só ano que vem). Ai, minha
cidade querida... Olho para os lados, as pessoas passam por nós com um tom meio
desconfiado. Mulheres apertam as bolsas e homens apressam o passo. – Quanto
preconceito... – Ouço Ani pronunciar, roubando um trago do meu cigarro. –
Criança não pode fumar, larga. – Essa tentativa dela de ser mais mulher era um
tanto irritante. – E deixa de ser ingênua... Somos moradores de rua, claro que
há preconceito. - Ani agora já deu de ombros, tá encarando o céu. – Vai chover.
– Ela diz, deitando-se. É, vai mesmo. Eu não sei, talvez deveria mesmo parar de
me drogar por aí. Mas não é uma coisa que se faz da noite pro dia, entende? Não
mesmo... Olho pra Ani e passo a acariciar seus cabelos com a minha mão livre. –
Afinal... Por que você fugiu? – Ela se afasta da minha mão e dá de ombros
novamente. – Eu quis. – Ela quis. É, ela quis fugir e perder tudo, todas as
chances. Se eu me arrependo de ter largado tudo aos treze anos? Claro que sim.
Eu poderia estar na UnB agora, poderia estar namorando a Isa, poderia ter meu
carro... Poderia estar limpo. E o melhor, eu não me venderia, não precisaria
lidar com cada marido nojento que trai suas mulheres com outros homens. A
maioria quer nos humilhar, nos chamar de putinhas, nem são realmente
homossexuais. Os gays nós reconhecemos, são mais amorosos na maioria das vezes.
Malditos maridos filhos da puta. Olho para o lado e cuspo longe, aquilo me
enoja. Aquele era só mais um dia, os palcos já começaram a ser montados, e a
gente tava ali. – Senti uma gota, vamos? – Eu pergunto para Ani, dando o último
trago no meu cigarro, a sensação da fumaça saindo da minha boca. – Não. Quero a
chuva em mim. – E começa a chover. E chove em nós dois. Deitados, molhados. Ela
segura minha mão e a aperta. – Eu te amo, Remo. – E eu a amo de volta. Um
pequeno momento em um dia qualquer, às vezes faz a diferença. Acho que é
isso... Por hoje, nada mais será tão importante quanto um carinho de um amigo.
domingo, 28 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
Décimo dia, quarto mês, ano 2009 – Lá pelas nove e meia da manhã.
Minha cabeça está girando, acho também que
estou com febre... Sabe quando você abre os olhos e vê um monte de nada?
Tipo... Tudo embaçado, figuras indecifráveis... – Remo? – A voz é perto demais,
dói minha cabeça. – Que foi, Benki? – Tento focá-la, mas só consigo enxergar um
vulto contra o sol. – Remo... Acho que estou grávida. – Ela diz, virando-se
para vomitar. – Não, você não tá grávida... Esse vômito é só o cachorro-quente
de ontem. – Eu rio debochado, virando-me para esquerda e vomitando também. –
Merda... – Ela se senta ao meu lado, encarando o chão. – Eu acho que eu queria
estar. – Eu fecho os olhos. Tudo escuro é melhor. – HAHAHA, Quem seria o pai? –
Meu estômago dói. – Ninguém. Meu filho só teria mãe. – Abro os olhos só para
revirá-los. – Deixa de ser idiota, não é bom crescer sem pai. – Tardes e
tardes... Nunca tive pai. Benki se levanta, acho que já está bêbada...
Impressionante, mal começa o dia e ela já está assim, cambaleante. “O
Ministério da Saúde adverte: droga mata.” Drogas... Eu uso algumas. Drogas
matam. Minha cabeça latejando, estou suando frio. Socorro. Branco total. [...] –
Remo?? – Sinto água no meu rosto. – REMO?! Acorda! – A voz de Carmina, sua mão
em meu rosto, batendo na minha cara de drogado moribundo. – Carm... Carmina? –
Ela me abraça, não entendo. Eu desmaiei? O que escorre no meu rosto é vodka,
não água. Arde. – Você tem que parar de usar heroína. – Ela me entrega meu
kitzinho. Eu injeto... Ar fresco, nenhuma dor. Fecho os olhos novamente só para
presenciar o prazer que é a minha injeção. – Você comeu a Ani? – Parece o Koda.
– É bom? – Eu só ouço por fora... Meu interior é puro êxtase. Êxtase. Êxtase...
Sinto falta do Alex. É a verdade: eu sinto falta do Alex. As lágrimas agora me
escorrem a face, contra a minha vontade. Meu interior diz isso, rindo de mim, “imbecil,
você sabe que o ama”. Agora choro como um bebê. Um bebê muito idiota. – Ani...
Eu quero a Ani... – Sinto os braços dela ao meu redor. – Vai ficar tudo bem,
Remo... – Ela beija minha testa. São apenas sensações, não enxergo muito.
Tristeza, dor emocional, tudo em meio a um orgasmo de heroína. – Vai se foder,
Koda, sai daqui! – Ela grita... Estressada. Ele deve ter falado alguma merda. E
eu choro. – Ele não podia ter ido embora... – Choro, choro. Meu amigo, sim. O
melhor que já tive. Meu brati se foi.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Quarto dia, quarto mês, ano 2009 – Só três da tarde.
Eu e Ani pegamos um ônibus para a W3 norte, ela
disse que queria me mostrar um lugar especial. Provavelmente eu já conhecia,
mas tudo bem... Nesse último mês nós nos tornamos realmente muito amigos, o que
é estranho considerando que ela é praticamente uma ex minha. Descemos na 315 e
agora estamos embaixo do bloco E dessa mesma quadra. De acordo com Ani, é um
lugar que ela gosta muito por ter morado aqui há, pelo menos, uns dez anos; diz
nunca ter esquecido. – Às vezes eu venho para cá, trago meu caderninho e fico
escrevendo até não ter mais ideias. – Ela me confidenciou, assim que chegamos.
Estou sóbrio... Não me piquei hoje ainda, só faço isso mais a noite, então
estou bem... Por enquanto, estou bem. Agora Ani fala de quando perdeu a
virgindade com Alex e eu realmente não estou muito contente ouvindo isso tudo.
É um tanto repulsivo, sabe? Eu sei, eu sei... Vivo coisas bem piores. Mas sei
lá, imaginar Alex por cima dessa menina... É uma coisa nojenta. E ela parece não tê-lo esquecido mesmo. Aliás, parece estar bem longe disso. – Já leu
Crepúsculo dos Ídolos? – Pergunto assim que ela pausa para respirar, tentando
cortar essa monotonia de sexo perdido atrás do Ministério da Cultura. –
Nietzsche, certo? Nunca li. – Damos de ombros, e ela volta a falar sobre o
sexo. – Não doeu nadinha... – Reviro os olhos, mas já acostumado com essa
porcariada toda. – Obviamente, você estava relaxada. Não sei como, mas estava. –
Meu tom de total indiferença parece não atingí-la em nenhum aspecto, e ela
continua tagarelando sobre o sexo. Que menininha! Às vezes Ani é muito madura,
mas outras consegue parecer estar em seus dez anos ainda. Sua inteligência é
capaz de tanto... Sei lá. – Olha só... Você só transou uma vez. Talvez, para
ter uma melhor opinião sobre o assunto, você deva dar mais vezes e para outras
pessoas. Porque, sinceramente, assim você parece uma virgem contando uma
história inventada. – E, sinceramente, está me irritando profundamente. Ela me
encara, meio ofendida, mas logo desfaz a expressão de raiva. – Quer transar
comigo? – MAS QUE DIABOS?! Essa menina é louca, não é possível. Ou entendeu
tudo errado, sei lá. – Não insinuei isso, Ani... – Admito estar decepcionado.
Ingenuidade em forma de pessoa. – Eu sei que não, mas quero transar contigo,
então estou perguntando se você quer me comer. – Pasmo. É sério isso? Uma
garota oferecendo sexo? Não vou tentar argumentar com Ani, ela é uma teimosa. E
além do mais... Todos sabem que gosto muito dela e que já até fui apaixonado
por ela! Então... Que se foda!! Eu realmente não queria, mas a objetividade de
Ani me pegou de surpresa. Acho que me fez lembrar de sentimentos avulsos dum
passado não tão distante. – Tá bem, então. – Ela sorri para mim e eu volto a
encarar o jardim. É só uma transa entre amigos, certo? Nada demais... Às vezes
eu me sinto meio frio com esse tipo de coisa. Mas frio mesmo, fisicamente
falando... Pego um cigarro, acendo-o. É para me aquecer, entende? Sopro a
fumaça em “bolinhas”, como diz Benki. Gosto de chamar de circunferências
desenhadas. – Escreve aí, Ani... – Começo. – O quê? – Ela já está com caderno e
caneta na mão. – Papibaquígrafo. – Trago fundo e solto calmamente a fumaça. – O
que é isso? – Ani pergunta, enquanto anota. – Um trava-línguas... Pronuncia aí,
quero ouvir. – E ela fala, sem erros, sem tropeços... – Papibaquígrafo. –
Lembro de Isa... Ela que dizia que só foderíamos se eu tivesse dicção o
suficiente para pronunciar “papibaquígrafo” sem errar. Acho que posso comer Ani
sem medo de ser feliz. Beijo-a, como a
beijei tantas vezes antes. É... Bom. Como eu me lembrava.
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