Eu e Ani pegamos um ônibus para a W3 norte, ela
disse que queria me mostrar um lugar especial. Provavelmente eu já conhecia,
mas tudo bem... Nesse último mês nós nos tornamos realmente muito amigos, o que
é estranho considerando que ela é praticamente uma ex minha. Descemos na 315 e
agora estamos embaixo do bloco E dessa mesma quadra. De acordo com Ani, é um
lugar que ela gosta muito por ter morado aqui há, pelo menos, uns dez anos; diz
nunca ter esquecido. – Às vezes eu venho para cá, trago meu caderninho e fico
escrevendo até não ter mais ideias. – Ela me confidenciou, assim que chegamos.
Estou sóbrio... Não me piquei hoje ainda, só faço isso mais a noite, então
estou bem... Por enquanto, estou bem. Agora Ani fala de quando perdeu a
virgindade com Alex e eu realmente não estou muito contente ouvindo isso tudo.
É um tanto repulsivo, sabe? Eu sei, eu sei... Vivo coisas bem piores. Mas sei
lá, imaginar Alex por cima dessa menina... É uma coisa nojenta. E ela parece não tê-lo esquecido mesmo. Aliás, parece estar bem longe disso. – Já leu
Crepúsculo dos Ídolos? – Pergunto assim que ela pausa para respirar, tentando
cortar essa monotonia de sexo perdido atrás do Ministério da Cultura. –
Nietzsche, certo? Nunca li. – Damos de ombros, e ela volta a falar sobre o
sexo. – Não doeu nadinha... – Reviro os olhos, mas já acostumado com essa
porcariada toda. – Obviamente, você estava relaxada. Não sei como, mas estava. –
Meu tom de total indiferença parece não atingí-la em nenhum aspecto, e ela
continua tagarelando sobre o sexo. Que menininha! Às vezes Ani é muito madura,
mas outras consegue parecer estar em seus dez anos ainda. Sua inteligência é
capaz de tanto... Sei lá. – Olha só... Você só transou uma vez. Talvez, para
ter uma melhor opinião sobre o assunto, você deva dar mais vezes e para outras
pessoas. Porque, sinceramente, assim você parece uma virgem contando uma
história inventada. – E, sinceramente, está me irritando profundamente. Ela me
encara, meio ofendida, mas logo desfaz a expressão de raiva. – Quer transar
comigo? – MAS QUE DIABOS?! Essa menina é louca, não é possível. Ou entendeu
tudo errado, sei lá. – Não insinuei isso, Ani... – Admito estar decepcionado.
Ingenuidade em forma de pessoa. – Eu sei que não, mas quero transar contigo,
então estou perguntando se você quer me comer. – Pasmo. É sério isso? Uma
garota oferecendo sexo? Não vou tentar argumentar com Ani, ela é uma teimosa. E
além do mais... Todos sabem que gosto muito dela e que já até fui apaixonado
por ela! Então... Que se foda!! Eu realmente não queria, mas a objetividade de
Ani me pegou de surpresa. Acho que me fez lembrar de sentimentos avulsos dum
passado não tão distante. – Tá bem, então. – Ela sorri para mim e eu volto a
encarar o jardim. É só uma transa entre amigos, certo? Nada demais... Às vezes
eu me sinto meio frio com esse tipo de coisa. Mas frio mesmo, fisicamente
falando... Pego um cigarro, acendo-o. É para me aquecer, entende? Sopro a
fumaça em “bolinhas”, como diz Benki. Gosto de chamar de circunferências
desenhadas. – Escreve aí, Ani... – Começo. – O quê? – Ela já está com caderno e
caneta na mão. – Papibaquígrafo. – Trago fundo e solto calmamente a fumaça. – O
que é isso? – Ani pergunta, enquanto anota. – Um trava-línguas... Pronuncia aí,
quero ouvir. – E ela fala, sem erros, sem tropeços... – Papibaquígrafo. –
Lembro de Isa... Ela que dizia que só foderíamos se eu tivesse dicção o
suficiente para pronunciar “papibaquígrafo” sem errar. Acho que posso comer Ani
sem medo de ser feliz. Beijo-a, como a
beijei tantas vezes antes. É... Bom. Como eu me lembrava.
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