segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Quarto dia, quarto mês, ano 2009 – Só três da tarde.


Eu e Ani pegamos um ônibus para a W3 norte, ela disse que queria me mostrar um lugar especial. Provavelmente eu já conhecia, mas tudo bem... Nesse último mês nós nos tornamos realmente muito amigos, o que é estranho considerando que ela é praticamente uma ex minha. Descemos na 315 e agora estamos embaixo do bloco E dessa mesma quadra. De acordo com Ani, é um lugar que ela gosta muito por ter morado aqui há, pelo menos, uns dez anos; diz nunca ter esquecido. – Às vezes eu venho para cá, trago meu caderninho e fico escrevendo até não ter mais ideias. – Ela me confidenciou, assim que chegamos. Estou sóbrio... Não me piquei hoje ainda, só faço isso mais a noite, então estou bem... Por enquanto, estou bem. Agora Ani fala de quando perdeu a virgindade com Alex e eu realmente não estou muito contente ouvindo isso tudo. É um tanto repulsivo, sabe? Eu sei, eu sei... Vivo coisas bem piores. Mas sei lá, imaginar Alex por cima dessa menina... É uma coisa nojenta. E ela parece não tê-lo esquecido mesmo. Aliás, parece estar bem longe disso. – Já leu Crepúsculo dos Ídolos? – Pergunto assim que ela pausa para respirar, tentando cortar essa monotonia de sexo perdido atrás do Ministério da Cultura. – Nietzsche, certo? Nunca li. – Damos de ombros, e ela volta a falar sobre o sexo. – Não doeu nadinha... – Reviro os olhos, mas já acostumado com essa porcariada toda. – Obviamente, você estava relaxada. Não sei como, mas estava. – Meu tom de total indiferença parece não atingí-la em nenhum aspecto, e ela continua tagarelando sobre o sexo. Que menininha! Às vezes Ani é muito madura, mas outras consegue parecer estar em seus dez anos ainda. Sua inteligência é capaz de tanto... Sei lá. – Olha só... Você só transou uma vez. Talvez, para ter uma melhor opinião sobre o assunto, você deva dar mais vezes e para outras pessoas. Porque, sinceramente, assim você parece uma virgem contando uma história inventada. – E, sinceramente, está me irritando profundamente. Ela me encara, meio ofendida, mas logo desfaz a expressão de raiva. – Quer transar comigo? – MAS QUE DIABOS?! Essa menina é louca, não é possível. Ou entendeu tudo errado, sei lá. – Não insinuei isso, Ani... – Admito estar decepcionado. Ingenuidade em forma de pessoa. – Eu sei que não, mas quero transar contigo, então estou perguntando se você quer me comer. – Pasmo. É sério isso? Uma garota oferecendo sexo? Não vou tentar argumentar com Ani, ela é uma teimosa. E além do mais... Todos sabem que gosto muito dela e que já até fui apaixonado por ela! Então... Que se foda!! Eu realmente não queria, mas a objetividade de Ani me pegou de surpresa. Acho que me fez lembrar de sentimentos avulsos dum passado não tão distante. – Tá bem, então. – Ela sorri para mim e eu volto a encarar o jardim. É só uma transa entre amigos, certo? Nada demais... Às vezes eu me sinto meio frio com esse tipo de coisa. Mas frio mesmo, fisicamente falando... Pego um cigarro, acendo-o. É para me aquecer, entende? Sopro a fumaça em “bolinhas”, como diz Benki. Gosto de chamar de circunferências desenhadas. – Escreve aí, Ani... – Começo. – O quê? – Ela já está com caderno e caneta na mão. – Papibaquígrafo. – Trago fundo e solto calmamente a fumaça. – O que é isso? – Ani pergunta, enquanto anota. – Um trava-línguas... Pronuncia aí, quero ouvir. – E ela fala, sem erros, sem tropeços... – Papibaquígrafo. – Lembro de Isa... Ela que dizia que só foderíamos se eu tivesse dicção o suficiente para pronunciar “papibaquígrafo” sem errar. Acho que posso comer Ani sem medo de ser feliz.  Beijo-a, como a beijei tantas vezes antes. É... Bom. Como eu me lembrava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário