- Ei, gostosinho... Tá quanto a chupeta? – Aquele
eu já tinha visto de longe; torcia para não me escolher, mas nem sempre as coisas
são como queremos... Hoje ele veio até mim, e me faz essa pergunta que para
muitos seria constrangedora, mas para mim é rotina. – Vinte pra fazer,
cinquenta pra receber. – Meu sorriso chapado é só para ele, um sorriso mentiroso...
É o meu trabalho, porém. Não posso deixar de fazê-lo por caprichos. – E a
levada? – Ele pergunta, aproximando-se, me rondando, avaliando. – A levada fica
por noventa... Mercadoria pouco usada. – Ele para de frente para mim, passa uma
mão no meu rosto. Agonia. Nojo. Asco. Arrepio-me. – Sim, sim... Você é mesmo
uma coisa, não é? – Estamos na área de avaliação, aonde os clientes escolhem.
Aqui acontece pouco, a ação mesmo é no carro, costumam apalpar, pedem pra gente
endurecer logo... Falam até mesmo de mulher pra ver se nosso pau cresce rápido.
Eles odeiam quando têm que falar de mulher, por isso já começo a bater antes...
Preciso ficar duro sem eles falarem de mulher, que daí pagam mais. A Carmina me
levou hoje mais cedo pra tomar uma cerva antes do trabalho, conversamos sobre
os clientes bad-trip. O que está na minha frente agora é um deles... Ela disse
que ele gosta de mijo. Não gosto de mijar em ninguém, não faço esse tipo de coisa,
fica um cheiro meio fodido, e o cheiro me broxa... Ele se aproxima para me dar
um beijo, eu viro o rosto. – Não aqui, tudo dentro do limite, eu já falei. –
Ele concorda, apontando seu carro com a cabeça, e nós caminhamos até lá. Só
entrar no palio preto e eu já começo a bater de leve, pra ele não implicar.
Preciso de um beck; ou um gole de vodka pura, talvez dois. Ele me encara de vez
em quando, enquanto dirige. – Tem um pau gostoso, ein? – Eu o olho, sorrindo e
tirando o mesmo de dentro da calça. NOJO. ABSOLUTO DESESPERO. Mas preciso da
minha droga, e pra minha droga eu preciso do dinheiro. Eu sei que uma hora isso
vai acabar... Isso TEM que acabar. Hoje mais cedo Ani pediu que eu não
trabalhasse, pelo menos não hoje porque ela queria companhia. O Japa ficou com
ela... Eu devia ter dado uns goles na vodka... Volto a pensar em buceta,
preciso pra ficar duro. Aquelas gostosinhas, molhadinhas... O carro para. Eu
encaro o motorista que agora se aproxima para me beijar. Dessa vez não posso
virar o rosto. Asco, aversão, ojeriza... Dor da falta de dignidade. Desprezo
por mim mesmo... Desvalorização. Descrença. Um anal. Não quero, mas preciso. Eu
me odeio, eu odeio, ele me chupa, lambe... Quero ir embora!! PRECISO IR!! São
três anos, não vou me acostumar nunca! Meus olhos lacrimejam, mas seco depressa
para não ser notado. Sou uma putinha... Odeio ser uma putinha.
Odeio ser uma putinha HAUHAUHAUHAUHAUHUAHUA
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