sábado, 16 de junho de 2012

18 de fevereiro de 2009 – 23h00min


Há quatro dias que Ani não aparece... Ela foi embora com aquele veadinho tatuado e largou a vida dura. Bom saber, bom mesmo. Estranho que ela parecia uma mina muito mais forte do que acabou demonstrando. Ah, sei lá, talvez ela seja, né? De qualquer forma, o Remo pareceu não estar muito contente com isso, ele acaba externando mais que os outros. “Porra, ela me trocou por um bostinha de tatuagem, saca?” Ele diz enquanto treme, puxando a tripa de mico improvisada com a boca. “Meu, na boa, acho que você tem que parar com essa merda, vai acabar te matando.” Eu sei lá, pode até fazer bem no momento e tal, mas a heroína além de ser cara pra caralho e estar quase em extinção, faz mal pra porra, já vimos uns amigos morrendo com essa coisa, saca? Ele olha pra mim agora com um sorriso irônico, dizendo mais que suas palavras... “Vai tomar no cu.” E injeta. A cara que ele faz é de puro prazer, um prazer alucinante. Sei bem, sei bem. Vai ficar assim por uma meia hora e eu não quero ficar assistindo isso. Carmina disse que ia na rodoviária, precisava arranjar algo pra comer, nosso dinheiro já acabou. Acho que vou dar uma passada lá, não tenho muito o que fazer e sinto falta de conversar com ela. Sempre que estou sozinho assim acabo pensando demais no futuro, e que sou da geração sem futuro. Sem futuro sim, não faço nada, saí da escola, larguei tudo pra morar e aprender a me virar. Tudo à prova! É assim que se vive, se colocando em extremos. Pelo menos eu acho que é assim... Passo sempre por momentos muito escrotos, mas e daí? Eu não me arrependo de nada do que fiz, sei que um dia farei algo grande, e estou seguindo no caminho certo, tenho certeza. “Carmina?” Ela se virou, assustada. “Puta que pariu, você me deu um susto, guri.” A voz afeminada, mas ainda assim grave. Eu rio, divertido, ela sempre me anima “E aí, minha bela transexual, como estás hoje?” Ela revira os olhos, para variar “Eu não sou transexual ainda, lembra? Ainda tenho um pinto.” Eu sempre esqueço dessa merda, mas tudo bem, não me importo porque para mim ela já é uma mulher, e sempre foi. “Tudo bem, tudo bem, perdão. Sabe, ando um pouco chateado.” Carmina consente, sorridente “Eu sei, tá se sentindo trocado, ahn?” Como? Trocado? “Ein?” “É, ué... A menina foi embora e você gosta dela...” “Ah.” Merda, odeio o fato de Carmina saber de tudo. “Não gosto não, ela era só mais uma bundinha bonita. Tenho a Benki, afinal.” Ela dá de ombros, rindo brincalhona... Odeio quando ela faz isso, dando um ar de superioridade, é detestável! Já falei pra ela, mas parece que não me escuta, porra. “Vai se foder! Você sabe muito bem que não me apaixono. Eu sou apaixonado pela causa, lembra? PELA CAUSA!” Ela riu ainda mais alto. “Ah, pobrezinho... Eu te disse, lembra? Um dia se renderia aos encantos do amor. Se não fosse por mim, seria por outra mulher.” “Cala a boca, Carmina, vai chupar uma rola!” Saio puto da vida, odeio quando ela faz isso, só deu tempo de ouví-la gritando “Vou fazer exatamente isso, NÃO SE PREOCUPE, MEU BEM!” Filha da puta! FILHA DUMA PUTA! É o que ela é, por isso que virou puta também. Não estou chorando, não estou. Eu vou ser alguém ainda, vou conseguir mudar essa bosta, todo mundo vai ver! Não me apaixono, nunca me deixei levar por uma coisa tão estúpida e não deixarei agora. Benki é só divertimento e Ani... Bem, Ani é só mais uma bobinha que achei que acreditava no mesmo que eu, mas estava enganado. Burguesinha mimada do caralho, isso sim. O jeito agora é ler um pouco mais e esperar Carmina-linda voltar com o dinheiro do rabo, estou precisando de cigarro e o meu acabou ontem... Não me aguento, não aguento isso, não aguento mais não fazer nada, tá na hora de começar a revolta.

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