Hoje estou pensativo... Quando penso demais,
normalmente saem-me anomalias, ou palavras que normalmente não me vêm à mente.
Se minha oralidade é cheia de ignorância e palavreado chulo, quando penso
demais me esforço para o limpo. Eu voltei anteontem, é claro. Não poderia
deixar meus pertences por aqui, mesmo que fossem poucos. Há livros que comprei
no sebo, há meu caderno de um real, há meu estojo, minhas canetas e meus
pensamentos. Tudo o que tenho, além do segundo par de calças rasgadas. Algo me
fez ficar por mais tempo ontem, acho que Ani e o sorriso que ela me lança
sempre que a encaro. Sorriso puro, de felicidade conjugada. Aquela maldita
ainda me fará cometer uma atrocidade. E é justamente o mesmo motivo que me fez
ficar que agora me faz ir embora. O sorriso cativante... Benki abraça-me toda
hora, tentando livrar-me do olhar de Ani, certa hora comentou comigo: “Aquela
vadia nojenta... Quem te ama sou eu, você sabe, não sabe?” Ela chorava, meio
indignada com o fato de Ani ter me abraçado mais cedo por um pouco mais de meio
minuto. Ela me envolvia com os braços, é verdade, me envolvia física e
emocionalmente com aqueles bracinhos de burguesinha em crise. Decorei o olhar
dela, aquele que diz as palavras que jamais esquecerei “Você me ama...” Amo?
Não sei... Aquela coisinha inédita, aparecida do plano piloto, chamando-me de
dorme-sujo de merda... Amo essa burguesinha fingida de punk? Amo esse cabelo
castanho cortado com gillette? Amo esse sorriso que julga-me forte só de
dirigir-se a mim? Não. É só uma fase, de quem acha que sabe alguma coisa, mas
não sabe nada. Fase da paixão pelo novo. ‘Carne nova’, dizem. Carne nova que,
por mais que tenha mais de um mês, é nova mesmo... Nova por ninguém saber de
fato quem é essa Ani... Essa Mônica. Benki está beijando minha bochecha nesse
exato momento, enquanto divago em pensamentos sobre a delicadeza apenas
aparente de Ani, e sobre como Remo a observa, apaixonado, tristonho, enquanto a
pequena dirige seu olhar para mim. Eu retribuo, sentindo nas mãos de Benki um
carinho que eu gostaria que fosse de Ani. Carmina parece escrever algo no meu
caderno, frenética. Normalmente, quando ela faz isso, é porque tem algo
importante a me dizer que ninguém mais tem direito de saber. Minha amizade com
Carmenzita é de ouro. Abandonaria isso tudo? Abandonaria isso por causa de um
simples pedaço na nobreza brasiliense dedicando-se à plebe? Ou melhor, nem
plebe somos... Somos a ralé, os mendigos, os mortos de fome, os prostituídos,
os drogados. Somos o nada. Ani levanta-se, lançando-me o olhar convidativo.
Aquele olhar que me leva aos lugares que ela está. Desvencilho-me dos carinhos
de Benki e sigo a pequena. Percebo os olhos de Remo se revirando enquanto ele
tira do bolso uma seringa, uma colher e o pozinho. Picou-se feito louco nesses
últimos dois dias. Confidenciara-me ontem, num desses orgasmos de heroína, que
sentia-se melhor picando do que fodendo, era muito melhor que a bucetinha da
Ani, muito melhor que a bucetinha de qualquer uma. “E como já comi! Comi buceta
pra caralho... Você sabe, né? Lembra da Lica? Comi muito a Lica...” Eu soquei
ele, soquei forte. Foi um soco que quase lhe quebrou o nariz. Que não falasse
da Lica, ele devia saber. Lica era minha protegida. Remo voltou algumas vezes a
Sobradinho pra vê-la, eu não tive coragem... Acho que eles tinham um romance na
infância. Trazia-me cartas dela, sempre preocupada. Nunca respondi. Soube que
ela havia se mudado, agora mora sozinha. Trabalha e estuda, só não sei aonde
nem o quê. Sinto falta das risadas, é verdade. Estou agora atrás no Ministério
da Saúde. É o último da direita do Congresso. Ani parece saber o que está
havendo. “Não vá embora...” E sabe. Ela me abraça, chorando feito uma
condenada. Não consigo abraçá-la de volta. Tem um nó na minha garganta, mas
nada sai de mim. Nenhum sentimento. Nem afeto, nem ódio. Ela sobe num murinho,
está da minha altura. “Eu te amo.” Sinto meu rosto duro. Não tenho o que falar.
Eu não a amo de volta... Não posso dizer que a odeio tampouco. Seus lábios
estão nos meus e, pela primeira vez nos últimos dez minutos, eu retribuo algo.
Meus braços em sua cintura a apertam contra mim, eu não quero ir... Não quero
mais. Quero segurar esse corpinho frágil contra o meu para todo o sempre e
nunca mais soltar. Fizemos sexo ali mesmo. São umas três da manhã, então não
tem ninguém aqui realmente. Transamos feito cães, nunca fodi com tanta vontade.
Queria poder gozar como gozara agora. Quase com amor... Ela agora se arruma,
parece envergonhada. Estou sem camisa, acendo um cigarro. “Você serve pra puta.
Fala com a Carmina sobre isso depois.” Saio agora, levando-me de volta à BNB.
Ouço-a chorar baixinho. É, acho que fui meio bruto sim, mas ela mereceu. Ela
merece muito pior, na verdade. E eu também. Eu mereço o inferno. Talvez o
esquema seja simples, ir embora, largar tudo. Amigos? Eles ficariam melhores sem
mim. Passo pelos ministérios, um por um... Eu poderia ir a São Paulo, viver por
lá. Ou talvez o Rio. Acho que seria melhor. Morar na praia. Morrer na praia.
Porque é... É assim. Nadar para morrer na praia. “Me vê um cigarro aí,
amigo...” Um mendigo qualquer, deitado numa parada de ônibus qualquer, pede-me
súplice. “Se fode aí, campeão. Só tenho esse.” Não tenho só esse. Mas meu
dinheiro é escasso demais pra gastar cigarro com mendigo sem ideia. Na BNB vejo
o Japa fazendo um movimento conhecido. “COMEU?” grita de longe. Puta que pariu,
só o que me falta. “Como foi, cara?” Eu rio agora, tentando esquecer o
ocorrido, mas brincando com ele. “Posso te mostrar como ela se sentiu, só você
virar aí a bundinha pra mim.” Koda joga o cabelo pro lado, cruzando os braços
logo depois. “Comeu porra nenhuma.” O Japa continua fazendo o movimento
pélvico, como se estivesse fodendo o ar. “COMEEEEEEEEEEEEEU! FODEU A PIRRAS QUE
EU SEEI.” Rio, mas procuro Remo com o olhar. Deve estar dormindo em algum
canto. “Vocês apostaram, né, seus bostas?” Koda dá de ombros, rindo. O cabelo
azul iluminado pelos postes. “Pode pagar o Japa, brother. Comi, e comi com
força.” Começa a gritaria. “IIIIIIIIIIIIIIIIIIIHAA” O Japa agora tá trotando em
volta do Koda “Passa os dezão aí, passa os dezão!” Me cago de rir também.
Porra, tudo isso por uma arara? É... Tudo isso por uma arara. Uma arara é tudo
o que temos de valioso. Vejo Ani agora, ela aparece sorrindo, de onde eu tinha
vindo. Por que diabos ela tá sorrindo? “E aí, gatinha? Quero ser o próximo...”
Koda agora brinca também. Ela revira os olhos, rindo. “Ná, o próximo vai pagar
cinquentinha. Me disseram que sirvo pra puta, vou fazer jus.” Nisso ela me
lança um olhar de ódio que nunca havia visto antes. Inédito! Totalmente
inédito! E essa era minha passagem de ida. Mas antes, uma sonequinha... “Boa
noite, aí, seus viados.” Deito no chão, mais macio que minha consciência. Meus
olhos fecham numa sonolência invejável...
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Meu caderno está gritando meu nome, acabo de
acordar. Mais cedo a Carmina escreveu alguma coisa, lembro que foi dormir logo
depois disso. Meus olhos abrem rapidamente só com a lembrança dessa informação.
Levanto e pego meu caderninho vermelho, cheio de anotações minhas e de Carmina.
‘Você é um idiota... Larga logo dessa Benki nojentinha e fica com a Ani! Você
gosta dela, seu boçal de merda!’ ah, mas que encrenqueira! ‘Larga de ser
frouxo. Para de bater punheta e toma uma atitude! Come ela, sei lá...’ Bem,
feito... ‘Ame-a como ela te ama. Porque ela te ama sim.’ E é assim que acaba o
recado. Bom, ela me disse ontem que me ama. Mas acho que o amor acabou. E eu
devo ir embora, porque agora Ani será PUTA. Putinha de quinze anos. Vou antes
dos dezesseis dessa guria, pra não ter que dar parabéns. Vou hoje. Sim, vou
hoje. Escrevo agora, escrevo algo que só Remo poderá ler. Escrevo com atenção e
até mesmo com amor. Um amor profundo que só tenho por ele e por Lica. Espero
que ele leia, se mais alguém pegar saberá que é para ele pelo vocabulário.
Deixo embaixo do meu travesseiro de espuma. Pois que seja! Agora eu vou.
Voltarei para o final da W3 Sul, e de lá irei para o Guará... Ou para
Taguatinga... Quem sabe eu volte para ir a Sobradinho. Quem sabe eu morra. Quem
sabe? Entro no ônibus, hoje tenho vinte reais. Me dá alguma coisa,
provavelmente vou conseguir comer. Pelo menos isso, não é? Dentro do ônibus,
uma garota me encara... Como encarava aquele rapaz dois dias atrás. Mas o olhar
é diferente. É um olhar conhecido, de amigo... “Maninho?” A menina senta-se ao
meu lado. “Lica?” Não sei se estou feliz ou perturbado. Ela abre um sorriso
enorme e me abraça. “Manoido, que saudaaaaaade!” As lágrimas correm pelo rosto
da minha querida, juntando-se às minhas quando ela beija minha bochecha e em seguida
meus olhos. “Ah, maninha... Que saudade!” A partir daqui as coisas mudarão,
posso sentir.
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