domingo, 28 de outubro de 2012

Décimo terceiro dia, quarto mês, ano 2009 – Seguras onze da manhã.


- Você tem que largar as drogas, sabia? – Reviro os olhos, fumando um cigarro enquanto encaro Ani discursando novamente sobre isso de ser um junkie idiota. – Ani, vai cuidar da sua vida. – Bato as cinzas no gramado da Esplanada. Estamos sentados aqui, entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e o M.T.E.. Daqui oito dias será o aniversário de Brasília, já tá tendo propaganda em tudo quanto é canto. Novinha, não vai fazer nem 50 anos (isso só ano que vem). Ai, minha cidade querida... Olho para os lados, as pessoas passam por nós com um tom meio desconfiado. Mulheres apertam as bolsas e homens apressam o passo. – Quanto preconceito... – Ouço Ani pronunciar, roubando um trago do meu cigarro. – Criança não pode fumar, larga. – Essa tentativa dela de ser mais mulher era um tanto irritante. – E deixa de ser ingênua... Somos moradores de rua, claro que há preconceito. - Ani agora já deu de ombros, tá encarando o céu. – Vai chover. – Ela diz, deitando-se. É, vai mesmo. Eu não sei, talvez deveria mesmo parar de me drogar por aí. Mas não é uma coisa que se faz da noite pro dia, entende? Não mesmo... Olho pra Ani e passo a acariciar seus cabelos com a minha mão livre. – Afinal... Por que você fugiu? – Ela se afasta da minha mão e dá de ombros novamente. – Eu quis. – Ela quis. É, ela quis fugir e perder tudo, todas as chances. Se eu me arrependo de ter largado tudo aos treze anos? Claro que sim. Eu poderia estar na UnB agora, poderia estar namorando a Isa, poderia ter meu carro... Poderia estar limpo. E o melhor, eu não me venderia, não precisaria lidar com cada marido nojento que trai suas mulheres com outros homens. A maioria quer nos humilhar, nos chamar de putinhas, nem são realmente homossexuais. Os gays nós reconhecemos, são mais amorosos na maioria das vezes. Malditos maridos filhos da puta. Olho para o lado e cuspo longe, aquilo me enoja. Aquele era só mais um dia, os palcos já começaram a ser montados, e a gente tava ali. – Senti uma gota, vamos? – Eu pergunto para Ani, dando o último trago no meu cigarro, a sensação da fumaça saindo da minha boca. – Não. Quero a chuva em mim. – E começa a chover. E chove em nós dois. Deitados, molhados. Ela segura minha mão e a aperta. – Eu te amo, Remo. – E eu a amo de volta. Um pequeno momento em um dia qualquer, às vezes faz a diferença. Acho que é isso... Por hoje, nada mais será tão importante quanto um carinho de um amigo.

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