quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Vigésimo sexto dia, quarto mês, ano 2009 – Sete da noite e alguns minutos mais.


Carmina me encara, fumando um Marlboro vermelho. – Vai dar pr’aquele velho de novo? – Ela me pergunta e solta a fumaça, observando-a subir. Dou de ombros. A verdade é que se eu vou ou não dar o cu pro velho rico tarado, o problema é meu. – Foi ele quem tirou sua virgindade anal? – Dou de ombros novamente, tragando do cigarro que ela me oferecera minutos antes e eu só acendi agora pouco. A verdade é, novamente, que se perdi ou não a virgindade anal pro velho rico tarado, o problema é meu. – O turno só começa em cinco horas, vamos mudar de assunto, tá? – Ela me olha fundo, me perfura. – Tá largando a heroína, finalmente? – Pergunta, vestindo aquele sorriso de puta mal-comida. – Tô. – Resposta seca e trêmula, como meus últimos dois dias... Não estou conseguindo viver sem o cigarro e a maconha, porque a dor percorre o corpo inteiro, sabe? Eu tremo. Eu tremo demais. – Isso é bom. Isa? – Desvio o olhar. Ainda não quero falar de Isa. E não vou querer tão cedo. – Teve notícias do Alex? – Volto a encarar Carmina, esperando uma resposta. – Não. – Ela é breve. – Não quero falar de Alex. – Acho que Carmina sempre teve uma queda por ele... – Você sabe, ele é um merda. Sabe, não sabe? – Agora ela quem dá de ombros. – Gosto dele. Meu afilhado nas ruas. – Encaro-a, sinto meus dentes trincarem. – Também sou. – Ela consente, sorrindo. Aproxima-se, acariciando meus cabelos. – Eu o odeio... – Ela prende a respiração. – Não. Não o odeio mais. Eu o odiei. Agora não sinto nada. – Sinto-a abafada. Encaro-a. Ela deixa escorrer uma lágrima. Trago mais do cigarro, solto a fumaça. – Amanhã é meu aniversário... – Eu não sabia disso, sorrio para ela. – Quantos anos? Vinte? – Ela ri. – Vou fazer trinta e dois... Já tenho uma boa quantia, sabia? – Ela me olha, de lado. – Acho que mais um mês e consigo sair das ruas. – Ninguém nunca tocou no dinheiro de Carmina, mesmo em grandes necessidades. Todos torcemos por ela. – Mas acho que não vou. – Eu a fito, perplexo. Era algo que ela sempre quis, sabe? – Ani me contou o plano... E eu também sou revolucionária. – Eu rio, trago novamente, jogo o filtro fora, pego outro cigarro, acendo. – Isso é brincadeira de criança. – Ela me abraça de lado, tragando seu cigarro e repetindo meus gestos de agora pouco. – É, verdade... Mas vale a pena. – Estou leve, mas dolorido... Carmina se afasta, sentando num banco. A rodoviária está cheia. Fim de expediente. Nossa noite mal começou.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Vigésimo terceiro dia, quarto mês, ano 2009 – Uma da tarde.


Eu estou bem. Tenho que largar essa porcaria de heroína, vai acabar me matando... Estou agora na rodoviária, sentado e fumando um cigarro, esperando a Isa. Ela disse que viria me ver, não esqueci disso. – Rômulo? – Levanto a cabeça, encarando o rosto conhecido de Isa, sorrio para ela. – Aqui todo mundo me conhece como Remo... – O recado eu tinha recebido da Benki, ela estava bêbada dizendo que uma menina tinha passado aqui quando eu estava apagado e queria me ver hoje. Não sei nem como ela conseguiu passar essa mensagem, mas tudo bem! Levanto-me e abro os braços. Ela continua um tanto menor que eu, e o abraço dela continua o mais macio. Ofereço um cigarro, ela recusa. – Não gosto desse. – E pega o Lucky Strike vermelho da bolsa, acendendo-o. Ela está linda... Como sempre. – Estou morando sozinha, sabia? – Estamos caminhando agora, lado a lado. Que saudade que eu estava disso! – É? Aonde? – Pergunto, sorrindo, observando-a, deliciando-me com a sua presença. – Numa quitinete na Asa Norte. – Ela está indo muito bem, mesmo... Sempre a achei com um potencial fora do comum. – Por que não mora comigo? – Eu paro e a encaro, meio perplexo. Como assim morar com ela? – Tá doida? – Eu rio, colocando meu braço sobre seu ombro magrinho e frágil. – Não... Meu lugar é ali. – Falo apontando para a BNB. – Você não pode viver nessa ilusão-punk-revolucionária para sempre, Rômulo. – Ela insiste em me chamar de Rômulo, e eu tiro meu braço de por sobre seu ombro. Reviro os olhos. Ela nunca vai entender? – Beleza! Nós, iludidos-punks-revolucionários, temos uma surpresa para vocês, acomodados. – Ela me encara, ofendida. Odeio essa expressão que ela faz. – Volto daqui uns dias, vou te deixar pensar, ok? – Ela agora encara meu braço, todo picado. Está ficando vermelha... – E LARGA ESSA PORCARIA, OUVIU? – Ela puxa meu braço, apontando para minha veia. – ME SOLTA. – O QUE ELA QUER? ARRANCAR MEU BRAÇO FORA? Solto a mão dela e ainda dá pra ver onde ela segurou. Talvez esse encontro não tenha sido uma boa ideia, não agora. – VOLTO QUANDO VOCÊ CRIAR BOLAS! – Ela gritou de longe, me dando dedo. Dou de volta, e sigo para a BNB. Ani está sentada em um dos bancos, e observa eu me aproximando. – Que é? – Pergunto. Eu estou puto, estou sim. MUITO PUTO, NA REAL. VAI SE FODER, A MINA VEM PRA DIZER QUE O QUE EU TO FAZENDO É UMA MERDA SEM NOÇÃO?? – Lembra do plano do Sarney? – Ani me encara, desconfiada. – Lembro. – Eu me sento ao seu lado. – Vamos botar em prática? – Eu preciso mostrar à Isa que isso é sério!! Muito sério! – Claro. – Ela sorri, mas não parece tão animada. Levanta-se e começa a andar em direção à rodoviária. – Aonde você vai? – Pergunto, sem entender. – Fazer compras. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Vigésimo segundo dia, quarto mês, ano 2009 – Quase seis da manhã.

Minha cabeça vai explodir. – Juro que eu nunca mais vou beber na minha vida... – Ouço vômitos após a fala de Ani. – Fresca. – Não reconheço a voz, mas deve ser do Koda. Está tudo escuro demais... Ah. É porque meus olhos estão fechados, acabo de abrí-los. Nossa, está tudo claro demais. – Acho que vou vomitar também. – Estou tremendo. – Cadê meu pico? – Ninguém me responde, ouço mais gente vomitando. – Cadê meu pico??! – Estou tonto, suando. – Calma, rapaz. – É a Carmina. Minhas pernas... Eu não as sinto, meus braços doem. – Cadê...? – Meu coração está batendo muito forte. Ou é muito fraco? Eu não sei, só sei que está batendo de um jeito esquisito. – Meu pico, preciso do meu... – Estou piscando mais devagar que o normal. – Que cara é essa, Remo? – Japa? As vozes estão confusas, os barulhos também. – Eu... - Acho que vou... – Carmin... Car... – Está tudo escuro demais.

domingo, 11 de novembro de 2012

Vigésimo primeiro dia, quarto mês, ano 2009 – Próximo às oito e meia da noite.


Aqui está uma merda... Tirei folga para comemorar o aniversário da minha cidade linda, mas só o que vejo é um bando de idiotas bebendo, vomitando e mijando nos ministérios. Claro que eu já sabia, né? Todo ano é a mesma porcaria! A galera bem, fode com tudo, e vai embora. É uma celebração pelo aniversário de Brasília e esses imbecis só fazem sujeira. A programação é sempre o dia inteiro, esse ano tá rolando umas paradas bizarras e, cara, a Xuxa tá no palco. Quer dizer... Que porra é essa?! Mas okay, sem problema, estou aqui curtindo de boas. – Vei, mas que porra a Xuxa tá fazendo no palco? – O Japa tá me perguntando, ele acabou de voltar do mercadinho mais próximo. Tá com as vodkas e os cigarros. A maconha ficou por conta da Benki que ainda não apareceu... – Cara, não sei. – Chuto um poste pra tirar um pouco da poeira do meu coturno, mas desisto logo. Nego tá mesmo pulando com ilarilariê? Acendo um cigarro, trago e solto a fumaça pelo nariz. – Meu, tu tá muito branco... – Dou de ombros. – Tô ligado. – Benki aparece finalmente, tropeçando nos próprios pés, pra variar. – Para de beber, sua puta. – Eu falo, bolando o beck. Ela ri alto e vai se encostando no Japa, falando alguma coisa no ouvido dele que não sei o que é. Ele a empurra. – Arrombada do inferno. – Os dois riem, se beijando. Essa mina é mais rodada que tudo, mas é feliz. A minissaia de couro colada, a meia arrastão e o all star preto surrado me lembram um pouco a vadiagem de antigamente. Sei lá, eu curti muito esse estilo, antes da heroína. – Remo! – É a Ani, está há poucos passos de mim, vou até ela. Deixei a maconha com o Japa, então tá de boa. – Que é? – Pergunto, tragando mais do meu cigarro. Marlboro vermelho. – A gente podia trepar hoje, né? – Ela fala no meu ouvido, as mãos no meu quadril. Ani está com uma saia de couro também, a mesma meia arrastão de Benki, uma camisa regata, rasgada de um jeito que dá pra ver seu sutiã preto. – Não. – Falo pra ela, sorrindo e lambendo seu ouvido. – FILHO DA PUTA! – Ela grita, e agora está correndo atrás de mim. Haha, odeia quando lambem a orelha dela. Tropeço em alguma coisa e quando vejo é um gordo de seus vinte anos, me encarando com um olhar retardado de que está “indignado”. – Ou, filho da puta, tá doido? – Ele me fala, se levantando. Quase da minha altura, talvez uns três centímetros mais baixo. – Eu que te pergunto, seu merda. Tá fazendo o quê deitado no chão? – Ani desaparece. O cara se aproxima e me empurra. Filho da puta. – Tu é mongol? – Pergunto empurrando ele de volta. Ani aparece com o Japa, o Koda, a Benki e a Carmina. Pepê aparece logo mais de outro canto. – Filho da puta... – Ele vem com o punho fechado, logo sinto meu olho esquerdo latejando. Fecho meus punhos e caio e cima do cara. Cada soco é um ódio profundo saindo de mim. Aguentei muita coisa por muito tempo, saca? – Punk de merda!! – Um cara grita atrás de mim, e não entendo muito bem o que está acontecendo, mas ouço o Japa falar – MERDA É ESSA SUA CARA! – E logo mais vejo, na minha frente, Pepê socando um pagodeiro. Koda deu um gole na vodka e entregou pra Benki, que deu outro gole e largou a garrafa nas mãos da Ani. Para nós, isso é normal... Todo ano tem algo parecido. Normalmente quem arranjava encrenca era o Alex, não eu. Mas como ele não está... Ani parece apavorada. Benki está esmurrando um cara que tá tentando socar o Koda, mas acaba de levar um empurrão desse mesmo cara. É tudo muito confuso... Ani começa a gritar. – OS PORCOS, OS PORCOS!! – Merda, só o que me faltava. A porcalhada tava se aproximando, ao longe. Eu e os outros desferimos os últimos socos contra os filhos da puta e saímos correndo, Ani logo na frente. Eu estava com saudade desse tipo de coisa, a verdade é essa. Quebrar a cara de um imbecil daqueles durante o aniversário de Brasília é quase um ritual. Paramos agora, na frente do palco. A Xuxa ainda tá cantando... – XUXAAAAAA, EU TE AMOOOOOOO! – A Benki grita, mandando beijo pro palco, e logo cai na gargalhada. Todos nós caímos na gargalhada. Ani parece meio aflita. – Toma, putinha... Pra ficar melhor. – Koda acende o beck e entrega pra Ani, que puxa com vontade. Isso é divertido... – ESTAMOS TODOS BÊBADOOSS DE CAIIIRRR... – Carmina diz, engolindo a vodka como água. Risadas, risadas... Benki agora ri e chora ao mesmo tempo. – Que saudade do Alex, Japa... – Ela fala, se esfregando no menino. Ani fuma seu cigarro, não mais se incluindo na rodinha do beck. Não é que não está mais uma merda? E a gente se diverte... Entre sangue e álcool, a gente se diverte. 

domingo, 28 de outubro de 2012

Décimo terceiro dia, quarto mês, ano 2009 – Seguras onze da manhã.


- Você tem que largar as drogas, sabia? – Reviro os olhos, fumando um cigarro enquanto encaro Ani discursando novamente sobre isso de ser um junkie idiota. – Ani, vai cuidar da sua vida. – Bato as cinzas no gramado da Esplanada. Estamos sentados aqui, entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e o M.T.E.. Daqui oito dias será o aniversário de Brasília, já tá tendo propaganda em tudo quanto é canto. Novinha, não vai fazer nem 50 anos (isso só ano que vem). Ai, minha cidade querida... Olho para os lados, as pessoas passam por nós com um tom meio desconfiado. Mulheres apertam as bolsas e homens apressam o passo. – Quanto preconceito... – Ouço Ani pronunciar, roubando um trago do meu cigarro. – Criança não pode fumar, larga. – Essa tentativa dela de ser mais mulher era um tanto irritante. – E deixa de ser ingênua... Somos moradores de rua, claro que há preconceito. - Ani agora já deu de ombros, tá encarando o céu. – Vai chover. – Ela diz, deitando-se. É, vai mesmo. Eu não sei, talvez deveria mesmo parar de me drogar por aí. Mas não é uma coisa que se faz da noite pro dia, entende? Não mesmo... Olho pra Ani e passo a acariciar seus cabelos com a minha mão livre. – Afinal... Por que você fugiu? – Ela se afasta da minha mão e dá de ombros novamente. – Eu quis. – Ela quis. É, ela quis fugir e perder tudo, todas as chances. Se eu me arrependo de ter largado tudo aos treze anos? Claro que sim. Eu poderia estar na UnB agora, poderia estar namorando a Isa, poderia ter meu carro... Poderia estar limpo. E o melhor, eu não me venderia, não precisaria lidar com cada marido nojento que trai suas mulheres com outros homens. A maioria quer nos humilhar, nos chamar de putinhas, nem são realmente homossexuais. Os gays nós reconhecemos, são mais amorosos na maioria das vezes. Malditos maridos filhos da puta. Olho para o lado e cuspo longe, aquilo me enoja. Aquele era só mais um dia, os palcos já começaram a ser montados, e a gente tava ali. – Senti uma gota, vamos? – Eu pergunto para Ani, dando o último trago no meu cigarro, a sensação da fumaça saindo da minha boca. – Não. Quero a chuva em mim. – E começa a chover. E chove em nós dois. Deitados, molhados. Ela segura minha mão e a aperta. – Eu te amo, Remo. – E eu a amo de volta. Um pequeno momento em um dia qualquer, às vezes faz a diferença. Acho que é isso... Por hoje, nada mais será tão importante quanto um carinho de um amigo.

sábado, 13 de outubro de 2012

Décimo dia, quarto mês, ano 2009 – Lá pelas nove e meia da manhã.


Minha cabeça está girando, acho também que estou com febre... Sabe quando você abre os olhos e vê um monte de nada? Tipo... Tudo embaçado, figuras indecifráveis... – Remo? – A voz é perto demais, dói minha cabeça. – Que foi, Benki? – Tento focá-la, mas só consigo enxergar um vulto contra o sol. – Remo... Acho que estou grávida. – Ela diz, virando-se para vomitar. – Não, você não tá grávida... Esse vômito é só o cachorro-quente de ontem. – Eu rio debochado, virando-me para esquerda e vomitando também. – Merda... – Ela se senta ao meu lado, encarando o chão. – Eu acho que eu queria estar. – Eu fecho os olhos. Tudo escuro é melhor. – HAHAHA, Quem seria o pai? – Meu estômago dói. – Ninguém. Meu filho só teria mãe. – Abro os olhos só para revirá-los. – Deixa de ser idiota, não é bom crescer sem pai. – Tardes e tardes... Nunca tive pai. Benki se levanta, acho que já está bêbada... Impressionante, mal começa o dia e ela já está assim, cambaleante. “O Ministério da Saúde adverte: droga mata.” Drogas... Eu uso algumas. Drogas matam. Minha cabeça latejando, estou suando frio. Socorro. Branco total. [...] – Remo?? – Sinto água no meu rosto. – REMO?! Acorda! – A voz de Carmina, sua mão em meu rosto, batendo na minha cara de drogado moribundo. – Carm... Carmina? – Ela me abraça, não entendo. Eu desmaiei? O que escorre no meu rosto é vodka, não água. Arde. – Você tem que parar de usar heroína. – Ela me entrega meu kitzinho. Eu injeto... Ar fresco, nenhuma dor. Fecho os olhos novamente só para presenciar o prazer que é a minha injeção. – Você comeu a Ani? – Parece o Koda. – É bom? – Eu só ouço por fora... Meu interior é puro êxtase. Êxtase. Êxtase... Sinto falta do Alex. É a verdade: eu sinto falta do Alex. As lágrimas agora me escorrem a face, contra a minha vontade. Meu interior diz isso, rindo de mim, “imbecil, você sabe que o ama”. Agora choro como um bebê. Um bebê muito idiota. – Ani... Eu quero a Ani... – Sinto os braços dela ao meu redor. – Vai ficar tudo bem, Remo... – Ela beija minha testa. São apenas sensações, não enxergo muito. Tristeza, dor emocional, tudo em meio a um orgasmo de heroína. – Vai se foder, Koda, sai daqui! – Ela grita... Estressada. Ele deve ter falado alguma merda. E eu choro. – Ele não podia ter ido embora... – Choro, choro. Meu amigo, sim. O melhor que já tive. Meu brati se foi.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Quarto dia, quarto mês, ano 2009 – Só três da tarde.


Eu e Ani pegamos um ônibus para a W3 norte, ela disse que queria me mostrar um lugar especial. Provavelmente eu já conhecia, mas tudo bem... Nesse último mês nós nos tornamos realmente muito amigos, o que é estranho considerando que ela é praticamente uma ex minha. Descemos na 315 e agora estamos embaixo do bloco E dessa mesma quadra. De acordo com Ani, é um lugar que ela gosta muito por ter morado aqui há, pelo menos, uns dez anos; diz nunca ter esquecido. – Às vezes eu venho para cá, trago meu caderninho e fico escrevendo até não ter mais ideias. – Ela me confidenciou, assim que chegamos. Estou sóbrio... Não me piquei hoje ainda, só faço isso mais a noite, então estou bem... Por enquanto, estou bem. Agora Ani fala de quando perdeu a virgindade com Alex e eu realmente não estou muito contente ouvindo isso tudo. É um tanto repulsivo, sabe? Eu sei, eu sei... Vivo coisas bem piores. Mas sei lá, imaginar Alex por cima dessa menina... É uma coisa nojenta. E ela parece não tê-lo esquecido mesmo. Aliás, parece estar bem longe disso. – Já leu Crepúsculo dos Ídolos? – Pergunto assim que ela pausa para respirar, tentando cortar essa monotonia de sexo perdido atrás do Ministério da Cultura. – Nietzsche, certo? Nunca li. – Damos de ombros, e ela volta a falar sobre o sexo. – Não doeu nadinha... – Reviro os olhos, mas já acostumado com essa porcariada toda. – Obviamente, você estava relaxada. Não sei como, mas estava. – Meu tom de total indiferença parece não atingí-la em nenhum aspecto, e ela continua tagarelando sobre o sexo. Que menininha! Às vezes Ani é muito madura, mas outras consegue parecer estar em seus dez anos ainda. Sua inteligência é capaz de tanto... Sei lá. – Olha só... Você só transou uma vez. Talvez, para ter uma melhor opinião sobre o assunto, você deva dar mais vezes e para outras pessoas. Porque, sinceramente, assim você parece uma virgem contando uma história inventada. – E, sinceramente, está me irritando profundamente. Ela me encara, meio ofendida, mas logo desfaz a expressão de raiva. – Quer transar comigo? – MAS QUE DIABOS?! Essa menina é louca, não é possível. Ou entendeu tudo errado, sei lá. – Não insinuei isso, Ani... – Admito estar decepcionado. Ingenuidade em forma de pessoa. – Eu sei que não, mas quero transar contigo, então estou perguntando se você quer me comer. – Pasmo. É sério isso? Uma garota oferecendo sexo? Não vou tentar argumentar com Ani, ela é uma teimosa. E além do mais... Todos sabem que gosto muito dela e que já até fui apaixonado por ela! Então... Que se foda!! Eu realmente não queria, mas a objetividade de Ani me pegou de surpresa. Acho que me fez lembrar de sentimentos avulsos dum passado não tão distante. – Tá bem, então. – Ela sorri para mim e eu volto a encarar o jardim. É só uma transa entre amigos, certo? Nada demais... Às vezes eu me sinto meio frio com esse tipo de coisa. Mas frio mesmo, fisicamente falando... Pego um cigarro, acendo-o. É para me aquecer, entende? Sopro a fumaça em “bolinhas”, como diz Benki. Gosto de chamar de circunferências desenhadas. – Escreve aí, Ani... – Começo. – O quê? – Ela já está com caderno e caneta na mão. – Papibaquígrafo. – Trago fundo e solto calmamente a fumaça. – O que é isso? – Ani pergunta, enquanto anota. – Um trava-línguas... Pronuncia aí, quero ouvir. – E ela fala, sem erros, sem tropeços... – Papibaquígrafo. – Lembro de Isa... Ela que dizia que só foderíamos se eu tivesse dicção o suficiente para pronunciar “papibaquígrafo” sem errar. Acho que posso comer Ani sem medo de ser feliz.  Beijo-a, como a beijei tantas vezes antes. É... Bom. Como eu me lembrava.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Oitavo dia, terceiro mês, ano 2009. – As pequenas duas da manhã.


- Ei, gostosinho... Tá quanto a chupeta? – Aquele eu já tinha visto de longe; torcia para não me escolher, mas nem sempre as coisas são como queremos... Hoje ele veio até mim, e me faz essa pergunta que para muitos seria constrangedora, mas para mim é rotina. – Vinte pra fazer, cinquenta pra receber. – Meu sorriso chapado é só para ele, um sorriso mentiroso... É o meu trabalho, porém. Não posso deixar de fazê-lo por caprichos. – E a levada? – Ele pergunta, aproximando-se, me rondando, avaliando. – A levada fica por noventa... Mercadoria pouco usada. – Ele para de frente para mim, passa uma mão no meu rosto. Agonia. Nojo. Asco. Arrepio-me. – Sim, sim... Você é mesmo uma coisa, não é? – Estamos na área de avaliação, aonde os clientes escolhem. Aqui acontece pouco, a ação mesmo é no carro, costumam apalpar, pedem pra gente endurecer logo... Falam até mesmo de mulher pra ver se nosso pau cresce rápido. Eles odeiam quando têm que falar de mulher, por isso já começo a bater antes... Preciso ficar duro sem eles falarem de mulher, que daí pagam mais. A Carmina me levou hoje mais cedo pra tomar uma cerva antes do trabalho, conversamos sobre os clientes bad-trip. O que está na minha frente agora é um deles... Ela disse que ele gosta de mijo. Não gosto de mijar em ninguém, não faço esse tipo de coisa, fica um cheiro meio fodido, e o cheiro me broxa... Ele se aproxima para me dar um beijo, eu viro o rosto. – Não aqui, tudo dentro do limite, eu já falei. – Ele concorda, apontando seu carro com a cabeça, e nós caminhamos até lá. Só entrar no palio preto e eu já começo a bater de leve, pra ele não implicar. Preciso de um beck; ou um gole de vodka pura, talvez dois. Ele me encara de vez em quando, enquanto dirige. – Tem um pau gostoso, ein? – Eu o olho, sorrindo e tirando o mesmo de dentro da calça. NOJO. ABSOLUTO DESESPERO. Mas preciso da minha droga, e pra minha droga eu preciso do dinheiro. Eu sei que uma hora isso vai acabar... Isso TEM que acabar. Hoje mais cedo Ani pediu que eu não trabalhasse, pelo menos não hoje porque ela queria companhia. O Japa ficou com ela... Eu devia ter dado uns goles na vodka... Volto a pensar em buceta, preciso pra ficar duro. Aquelas gostosinhas, molhadinhas... O carro para. Eu encaro o motorista que agora se aproxima para me beijar. Dessa vez não posso virar o rosto. Asco, aversão, ojeriza... Dor da falta de dignidade. Desprezo por mim mesmo... Desvalorização. Descrença. Um anal. Não quero, mas preciso. Eu me odeio, eu odeio, ele me chupa, lambe... Quero ir embora!! PRECISO IR!! São três anos, não vou me acostumar nunca! Meus olhos lacrimejam, mas seco depressa para não ser notado. Sou uma putinha... Odeio ser uma putinha.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Primeiro dia, terceiro mês, ano 2009. – Meia noite em ponto.


- PARABÉÉÉÉÉÉÉÉNS PRAAAA VOOOOOOOOOCÊÊÊ, NEEEESSA DAAAAAAAATAAAAA QUEEEEERIIIIDAAAAAA. MUITAS FEEEEEEEEEEEEEELIIIICIIIIDAAAAAAAAADEEEEEEEES, MUITOS AAAAAAAAAAAANOOOOOS DEEEE VIIIIIIIIDAAAAAAAAAA!! – Um coral bêbado e chapado, é como isso se descreve. Eu mesmo estou loucaço, admitido e feliz. – Quantos aninhos, Ani? Treze?! – Ela me dá um soco no ombro, risonha, mesmo que ainda triste com o fato do rapagão lá ter ido embora. Diverte-se como nunca. – Caale a boca, Remo. Tá mais que na hora de assumir que sabe minha idade! – Dou de ombros, bebendo mais um gole da Orloff que roubamos para a ocasião especial. – Necas de pitibirabas, como dizia mamãe. Você é novinha dos treze. – Benki tá com a marafa, observo-a puxar e passar pro Japa. Alucinada, bebeu além da conta... Como sempre. Carmina está ao meu lado, acariciando-me os cabelos. Japa tá brincando com a aniversariante e os outros dois caras sumiram, devem ter ido arranjar o pó. Tem uns trafikes maneiros por aqui, eles têm de tudo, o bagulho vem de fora, coisa fina. A gente tem desconto pelos trabalhinhos que prestamos por aí também... Perco-me no tempo, pensando na heroína. Deixei tudo guardadinho ao lado do meu cobertor, aqui todo mundo respeita, ninguém mexe não... Eu tou querendo mesmo é a picadinha. Se eu não tivesse chapado, até me picava, mas deu uma moleza do caralho agora. Sentado no chão, encostado no Museu. – SEGURA A BENKI!! – Ouço as vozes ao longe. Que sono... – A BENKI! SEGURA ELA!! REMO, AJUDA AQUI! – Meus olhos se abrem, vejo uma garota branca, magra, correndo com os peitos pra fora, rindo. – Benki, pare... – Não quero me levantar. Começo a passar mal... – Ani... – Ela está mais perto, olha para mim. – Pega minhas coisas, preciso da picada. – Ela me encara, meio sombria, reprovando, se retira. Vadia! Sabia que não podia contar com ela, vagabunda escrota... Minha cabeça dói. A minha visão embaçada agora só capta a mocinha à minha frente, Ani. – Toma aqui o seu lixo. – Fala com desprezo, mas beija-me a testa antes de ir. Sei porque a sinto meio úmida. Talvez seja o suor, eu a seco... É tudo muito rápido, essas coisas são todas muito rápidas. Amarrei meu braço, minha boca só tem força para puxar o elástico que consegui no Hospital de Base outro dia. O pozinho na colher, acendo o isqueiro e o meu liquidozinho orgástico está pronto. Tudo muito rápido... A seringa enfiada na minha veia, meu sorriso espontâneo após o prazer. Ah, mas que prazer... Tenhamos um orgasmo multiplicado por infinito e prolongado por meia hora ou mais. Eis aqui o que sinto... – BEEENKI, SUA IMBECIL, VESTE ESSA CAMISA! – A voz da Carmina mais distante ainda... – Deixa ela assim, Carmelinda! Adoro essas tetinhas HAHAHA – Koda rindo, rindo e rindo e gargalhando e tentando agarrar a Benki. Eis os lapsos. Alucino, alucino muito. Tem alguém ao meu lado. – Dá uma picada, cara... – Japa olha pra mim, eu o encaro de volta, sorrindo. – Po, cara... Po... O que é meu é seu, cara... – Dezesseis anos, aah, que jovenzinha essa Ani, ela devia ir dormir... Como eu fui. Pena que meu sono não é sono.

domingo, 9 de setembro de 2012

Vigésimo segundo dia, segundo mês, ano 2009. – Duas da tarde e minutos além.


“Meu chudesni brati... Sentirei vossa falta. De certo, soarei como shom ao govoretar o tanto que morrerei de shilarnia contigo, e você não precisa fazer o mesmo. Cansei dos nossos druguis nazes, o zvuk desse grupo é como um toltchok na minha rassudok. Para não ubivatar ninguém, achei por bem ukadetar bem skorre. Sempre serás o mais horrorshow. Não deixe a forela te dominar. Beijos, meu querido drugui, meu lindíssimo brati! Amar-te-ei eternamente.”

O recado me foi entregue agora pouco, Benki está chorando feito uma mongolinha por causa desse imbecil que de repente sumiu da vida de todos. O que ele quer, cara? Ele quer provar o quê? Às vezes esse jeito babaca dele me faz pensar como que, aos doze anos, confiei tanto. A resposta está aí “aos doze anos.” Doze? Treze? Agora nem me lembro... A vida mudou bastante. O recado do sujeito indo embora me atingiu, sim... Mas acho que o sentimento que estou sentindo está meio longe de amizade e compaixão. “Amar-te-ei eternamente.” Ah, mas quanta preguiça tenho desses malditos floreios! À MERDA COM TODOS ELES! Estou vermelho de ódio, vão achar que estou triste pela ida. – Uma hora ele volta, Benki, não se preocupa. – Sim, estou rígido pra caralho. Ani me encara de longe, observa-me inquieta. – Que é? – Pergunto, meio puto. Essa menina é uma louca também. – Nada, Remo. Você que não tá bem. – Como consegui sentir alguma coisa por esse pedaço de insanidade? – Hm. – Jogo o papel no chão e caminho até o banco mais próximo, sentando-me. Está chovendo. Não muito, só um chuvisco... Anteontem choveu bem mais. – Ele não volta tão cedo, Benki... – Ouço a Ani falando, avaliando o bilhete. Os choros desesperados recomeçam, todo o drama benkiniano. – Como você sabe, guria? – Pergunto pra moreninha, que agora deixa uma lágrima escapar, silenciosa. – Já li Laranja Mecânica, não sou uma porta. – Ela se endireita e sai. Imagino que para a Catedral, pegou a mania do Alex, de certo. Maldito Alex... Mas que seja, que seja. Foi-se! Também não quero saber da ‘forela’, aquela outra dá-me arrepios que ainda não sei nomear... Carmina acaba de sentar ao meu lado. – Vamos trabalhar em dobro hoje? – Ela faz isso quando quer esquecer dores fortes. – Vou com você. – Respondo, acariciando seu cabelo longo de homem transformado. Já lhe beijei certa vez... Muito mais doce que muitas mulheres. Carmina é mais mulher que eu sou homem. Meu ódio é a tristeza dela, ela sabe, nem por isso me desgasta. Acendo um cigarro, só posso injetar a noite, estou tentando controlar-me. Pois sim... Adeus meu drugui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

21 de fevereiro de 2009 – Horários Diversos


Hoje estou pensativo... Quando penso demais, normalmente saem-me anomalias, ou palavras que normalmente não me vêm à mente. Se minha oralidade é cheia de ignorância e palavreado chulo, quando penso demais me esforço para o limpo. Eu voltei anteontem, é claro. Não poderia deixar meus pertences por aqui, mesmo que fossem poucos. Há livros que comprei no sebo, há meu caderno de um real, há meu estojo, minhas canetas e meus pensamentos. Tudo o que tenho, além do segundo par de calças rasgadas. Algo me fez ficar por mais tempo ontem, acho que Ani e o sorriso que ela me lança sempre que a encaro. Sorriso puro, de felicidade conjugada. Aquela maldita ainda me fará cometer uma atrocidade. E é justamente o mesmo motivo que me fez ficar que agora me faz ir embora. O sorriso cativante... Benki abraça-me toda hora, tentando livrar-me do olhar de Ani, certa hora comentou comigo: “Aquela vadia nojenta... Quem te ama sou eu, você sabe, não sabe?” Ela chorava, meio indignada com o fato de Ani ter me abraçado mais cedo por um pouco mais de meio minuto. Ela me envolvia com os braços, é verdade, me envolvia física e emocionalmente com aqueles bracinhos de burguesinha em crise. Decorei o olhar dela, aquele que diz as palavras que jamais esquecerei “Você me ama...” Amo? Não sei... Aquela coisinha inédita, aparecida do plano piloto, chamando-me de dorme-sujo de merda... Amo essa burguesinha fingida de punk? Amo esse cabelo castanho cortado com gillette? Amo esse sorriso que julga-me forte só de dirigir-se a mim? Não. É só uma fase, de quem acha que sabe alguma coisa, mas não sabe nada. Fase da paixão pelo novo. ‘Carne nova’, dizem. Carne nova que, por mais que tenha mais de um mês, é nova mesmo... Nova por ninguém saber de fato quem é essa Ani... Essa Mônica. Benki está beijando minha bochecha nesse exato momento, enquanto divago em pensamentos sobre a delicadeza apenas aparente de Ani, e sobre como Remo a observa, apaixonado, tristonho, enquanto a pequena dirige seu olhar para mim. Eu retribuo, sentindo nas mãos de Benki um carinho que eu gostaria que fosse de Ani. Carmina parece escrever algo no meu caderno, frenética. Normalmente, quando ela faz isso, é porque tem algo importante a me dizer que ninguém mais tem direito de saber. Minha amizade com Carmenzita é de ouro. Abandonaria isso tudo? Abandonaria isso por causa de um simples pedaço na nobreza brasiliense dedicando-se à plebe? Ou melhor, nem plebe somos... Somos a ralé, os mendigos, os mortos de fome, os prostituídos, os drogados. Somos o nada. Ani levanta-se, lançando-me o olhar convidativo. Aquele olhar que me leva aos lugares que ela está. Desvencilho-me dos carinhos de Benki e sigo a pequena. Percebo os olhos de Remo se revirando enquanto ele tira do bolso uma seringa, uma colher e o pozinho. Picou-se feito louco nesses últimos dois dias. Confidenciara-me ontem, num desses orgasmos de heroína, que sentia-se melhor picando do que fodendo, era muito melhor que a bucetinha da Ani, muito melhor que a bucetinha de qualquer uma. “E como já comi! Comi buceta pra caralho... Você sabe, né? Lembra da Lica? Comi muito a Lica...” Eu soquei ele, soquei forte. Foi um soco que quase lhe quebrou o nariz. Que não falasse da Lica, ele devia saber. Lica era minha protegida. Remo voltou algumas vezes a Sobradinho pra vê-la, eu não tive coragem... Acho que eles tinham um romance na infância. Trazia-me cartas dela, sempre preocupada. Nunca respondi. Soube que ela havia se mudado, agora mora sozinha. Trabalha e estuda, só não sei aonde nem o quê. Sinto falta das risadas, é verdade. Estou agora atrás no Ministério da Saúde. É o último da direita do Congresso. Ani parece saber o que está havendo. “Não vá embora...” E sabe. Ela me abraça, chorando feito uma condenada. Não consigo abraçá-la de volta. Tem um nó na minha garganta, mas nada sai de mim. Nenhum sentimento. Nem afeto, nem ódio. Ela sobe num murinho, está da minha altura. “Eu te amo.” Sinto meu rosto duro. Não tenho o que falar. Eu não a amo de volta... Não posso dizer que a odeio tampouco. Seus lábios estão nos meus e, pela primeira vez nos últimos dez minutos, eu retribuo algo. Meus braços em sua cintura a apertam contra mim, eu não quero ir... Não quero mais. Quero segurar esse corpinho frágil contra o meu para todo o sempre e nunca mais soltar. Fizemos sexo ali mesmo. São umas três da manhã, então não tem ninguém aqui realmente. Transamos feito cães, nunca fodi com tanta vontade. Queria poder gozar como gozara agora. Quase com amor... Ela agora se arruma, parece envergonhada. Estou sem camisa, acendo um cigarro. “Você serve pra puta. Fala com a Carmina sobre isso depois.” Saio agora, levando-me de volta à BNB. Ouço-a chorar baixinho. É, acho que fui meio bruto sim, mas ela mereceu. Ela merece muito pior, na verdade. E eu também. Eu mereço o inferno. Talvez o esquema seja simples, ir embora, largar tudo. Amigos? Eles ficariam melhores sem mim. Passo pelos ministérios, um por um... Eu poderia ir a São Paulo, viver por lá. Ou talvez o Rio. Acho que seria melhor. Morar na praia. Morrer na praia. Porque é... É assim. Nadar para morrer na praia. “Me vê um cigarro aí, amigo...” Um mendigo qualquer, deitado numa parada de ônibus qualquer, pede-me súplice. “Se fode aí, campeão. Só tenho esse.” Não tenho só esse. Mas meu dinheiro é escasso demais pra gastar cigarro com mendigo sem ideia. Na BNB vejo o Japa fazendo um movimento conhecido. “COMEU?” grita de longe. Puta que pariu, só o que me falta. “Como foi, cara?” Eu rio agora, tentando esquecer o ocorrido, mas brincando com ele. “Posso te mostrar como ela se sentiu, só você virar aí a bundinha pra mim.” Koda joga o cabelo pro lado, cruzando os braços logo depois. “Comeu porra nenhuma.” O Japa continua fazendo o movimento pélvico, como se estivesse fodendo o ar. “COMEEEEEEEEEEEEEU! FODEU A PIRRAS QUE EU SEEI.” Rio, mas procuro Remo com o olhar. Deve estar dormindo em algum canto. “Vocês apostaram, né, seus bostas?” Koda dá de ombros, rindo. O cabelo azul iluminado pelos postes. “Pode pagar o Japa, brother. Comi, e comi com força.” Começa a gritaria. “IIIIIIIIIIIIIIIIIIIHAA” O Japa agora tá trotando em volta do Koda “Passa os dezão aí, passa os dezão!” Me cago de rir também. Porra, tudo isso por uma arara? É... Tudo isso por uma arara. Uma arara é tudo o que temos de valioso. Vejo Ani agora, ela aparece sorrindo, de onde eu tinha vindo. Por que diabos ela tá sorrindo? “E aí, gatinha? Quero ser o próximo...” Koda agora brinca também. Ela revira os olhos, rindo. “Ná, o próximo vai pagar cinquentinha. Me disseram que sirvo pra puta, vou fazer jus.” Nisso ela me lança um olhar de ódio que nunca havia visto antes. Inédito! Totalmente inédito! E essa era minha passagem de ida. Mas antes, uma sonequinha... “Boa noite, aí, seus viados.” Deito no chão, mais macio que minha consciência. Meus olhos fecham numa sonolência invejável...

----------------------------------------------------------

Meu caderno está gritando meu nome, acabo de acordar. Mais cedo a Carmina escreveu alguma coisa, lembro que foi dormir logo depois disso. Meus olhos abrem rapidamente só com a lembrança dessa informação. Levanto e pego meu caderninho vermelho, cheio de anotações minhas e de Carmina. ‘Você é um idiota... Larga logo dessa Benki nojentinha e fica com a Ani! Você gosta dela, seu boçal de merda!’ ah, mas que encrenqueira! ‘Larga de ser frouxo. Para de bater punheta e toma uma atitude! Come ela, sei lá...’ Bem, feito... ‘Ame-a como ela te ama. Porque ela te ama sim.’ E é assim que acaba o recado. Bom, ela me disse ontem que me ama. Mas acho que o amor acabou. E eu devo ir embora, porque agora Ani será PUTA. Putinha de quinze anos. Vou antes dos dezesseis dessa guria, pra não ter que dar parabéns. Vou hoje. Sim, vou hoje. Escrevo agora, escrevo algo que só Remo poderá ler. Escrevo com atenção e até mesmo com amor. Um amor profundo que só tenho por ele e por Lica. Espero que ele leia, se mais alguém pegar saberá que é para ele pelo vocabulário. Deixo embaixo do meu travesseiro de espuma. Pois que seja! Agora eu vou. Voltarei para o final da W3 Sul, e de lá irei para o Guará... Ou para Taguatinga... Quem sabe eu volte para ir a Sobradinho. Quem sabe eu morra. Quem sabe? Entro no ônibus, hoje tenho vinte reais. Me dá alguma coisa, provavelmente vou conseguir comer. Pelo menos isso, não é? Dentro do ônibus, uma garota me encara... Como encarava aquele rapaz dois dias atrás. Mas o olhar é diferente. É um olhar conhecido, de amigo... “Maninho?” A menina senta-se ao meu lado. “Lica?” Não sei se estou feliz ou perturbado. Ela abre um sorriso enorme e me abraça. “Manoido, que saudaaaaaade!” As lágrimas correm pelo rosto da minha querida, juntando-se às minhas quando ela beija minha bochecha e em seguida meus olhos. “Ah, maninha... Que saudade!” A partir daqui as coisas mudarão, posso sentir.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

19 de fevereiro de 2009 – 11h11min


“Você é um idiota.” Remo me puxou pelo braço, acabou de acordar e perceber quem está por perto. Algo me diz que ele ainda tem sentimentos pela burguesinha fingida de punk. “Por que a trouxe de volta? Tava tudo bem, não tava?” Eu dou de ombros, meio encolhido. “Eu não trouxe ninguém, ela que apareceu...” Remo revira os olhos e volta para o grupo, fala com a garotinha que não parava de me encarar. Maldita Ani. Ou Mônica... Ou quem quer que fosse aquela coisa que veio ao mundo me tirar o sono. Benki está encostada em mim, limpando o canto da boca de vômito. “Passou mal de novo, beberronazinha?” Carmina tem esse tom ácido que soa incrivelmente agradável pra mim. “Vai se foder, traveco do inferno!” Certeza que a cabeça dela dói, não há dúvidas. “Não preciso disso, tem quem me foda.” Gritos de satisfação e gozação já começaram. Os famosos ‘veeeeeeeeeeeeeeeeeeesh!’. Eu rio alto, Benki tá puta mesmo, acabou de sair em direção ao Conic. “VÃO TOMAR NO CUUU, BANDO DE VIADO!” Ela grita agora, já meio longe, mostrando o dedo do meio. Ani está próxima de mim, próxima demais na verdade. “E aí, o que acha sobre minha ideia?” A vozinha quase apagada, sorrindo-me inquieta. “Vai se foder.” Eu não tou com paciência pra ela e o Remo tá me fuzilando com os olhos. A rodoviária me é convidativa agora, e é pra lá que eu vou. Até mais, bastardos nojentos, minha própria raça e escória. Vou viver de ônibus. Tenho dois reais, o que me leva até o final da W3 Sul. O final da W3 Sul e o início dos meus pensamentos de merda. Serão alguns minutos agora, até chegar lá... Talvez uma meia hora, dependendo de quantas pessoas entrarem e saírem... Uma hora... Duas horas? Um garoto, não deve ter 15 anos ainda, entrou agora no ônibus que eu estou. Ele não para de me encarar... Olhos esbugalhados. Espantado com a pobreza? Encaro de volta. Meu pensamento mais alto... ESPANTADO COM A POBREZA? O menino parece tremer por dentro, mas não sei. Não conheço. “Espantado com a pobreza?” Pergunto, seco. Ele balança a cabeça rapidamente, como quem diz que não. “Pois devia.” Encaro a janela. Estou chegando... Final da W3 Sul, início dos meus pensamentos de merda. Foda-se Remo, foda-se Ani, foda-se Benki... Foda-se tudo e todos. Estou no final da W3 Sul.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

19 de fevereiro de 2009 – 03h13min


Todos dormindo, menos a Carmina que deve estar pela noite ainda. ‘O trabalho é árduo e diário’, ela sempre diz. Precisa juntar grana o suficiente para a cirurgia. Sei que se não fosse por nós ela já teria conseguido o dinheiro necessário... É, Carmina virou nossa mãe de rua. Estou sentado aqui na frente do Congresso Nacional. É bom ver isso aqui às três da manhã, quando não tá lotado de morcegóides, é um lugar bonito mesmo. Ainda estou sem cigarro, então o que posso fazer é simplesmente viajar nos sons da madrugada. Alguns carros, algumas motos... Mendigos bêbados. Sons desse tipo realmente me relaxam, não sei porquê. “Adivinha quem é?” Uma voz conhecida acaba de soar em meus ouvidos, tão melódica quanto o grito da pobreza - ‘QUERO MAAAIS, QUERO CACHAÇA PRA ESQUECER MEU AMOOR!’ – As mãos frias tampando meus olhos... Mas o que diabos ela estava fazendo ali? “Estou sonhando acordado?” Pergunto num sorriso idiota, porque só poderia ser um sonho, né? “Não, não haha, estou de volta!” Ani então aparece na minha frente, com as mesmas roupas de antes, o mesmo cabelo desgrenhado, o mesmo sorriso ingênuo. “O... O quê...?” Eu não sei se estou feliz, ou se estou indignado. Quer dizer, eu nunca sei o que sentir ou falar quando estou perto desse pitoco de gente. Enfurecido? Acho que é isso, estou enfurecido. Já estou de pé, incomodado, desnaturado! “QUAL O SEU PROBLEMA?” Eu pergunto, desajustado. “O meu problem...” “O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI? A GENTE TAVA BEM, SABIA? A GENTE TAVA MUITO BEM! VAI EMBORA!” “HAHAHA Você não quer que eu vá embora...” “CALA A BOCA!” Não é possível que eu esteja chorando. Malditas lágrimas! Eu não sou fraco, não estou chorando! “Você me ama...” “CALA A MALDITA BOCA!” “Eu posso te ajudar, sabia?” Eu paro, olho para Ani, aquela coisinha pequena. “Meu aniversário está chegando... Vou fazer dezesseis.” “Ah, que bom, e como isso pode me ajudar?” “Sabe quem agora é Presidente do Senado?” “O Sarney?” “Uhum... Tomou posse dia 2 desse mês. Antes disso ele foi Senador pelo Amapá – ainda é, inclusive - , Governador do Maranhão e também, pasme, Presidente.” O que diabos ela tanto falava do Sarney? “Tá, e daí?” Ela ri, como se o que ela dissesse fosse realmente óbvio. “Imagina... O Sarney aqui, ó... Daí BOOM!” Ahn? Só eu não acompanhei o raciocínio? Não sei se é meu ódio, minha frustração, mas aquilo estava muito confuso. “Explodir o Sarney! Pensa!” Arregalo os olhos... Explodir o Sarney? “HAHAHA AH TÁ, e como você pretende fazer isso?” Ela deitou na grama, encarando o céu. “Voltei para pedir ajuda a um dos únicos grupos punks que realmente querem mudança nessa droga.” Fiquei encarando Ani. Para uma menina de quinze anos – quase dezesseis – ela até que tinha ideias boas... Talvez não muito executáveis, mas inteligentes em algum sentido. “E isso é só o começo... Só pra assustar.” De fato, de fato, inteligente... Um tanto maníaca, mas inteligente. Minhas lágrimas agora estão secando sozinhas... Ah! Como eu a odeio!

sábado, 16 de junho de 2012

18 de fevereiro de 2009 – 23h00min


Há quatro dias que Ani não aparece... Ela foi embora com aquele veadinho tatuado e largou a vida dura. Bom saber, bom mesmo. Estranho que ela parecia uma mina muito mais forte do que acabou demonstrando. Ah, sei lá, talvez ela seja, né? De qualquer forma, o Remo pareceu não estar muito contente com isso, ele acaba externando mais que os outros. “Porra, ela me trocou por um bostinha de tatuagem, saca?” Ele diz enquanto treme, puxando a tripa de mico improvisada com a boca. “Meu, na boa, acho que você tem que parar com essa merda, vai acabar te matando.” Eu sei lá, pode até fazer bem no momento e tal, mas a heroína além de ser cara pra caralho e estar quase em extinção, faz mal pra porra, já vimos uns amigos morrendo com essa coisa, saca? Ele olha pra mim agora com um sorriso irônico, dizendo mais que suas palavras... “Vai tomar no cu.” E injeta. A cara que ele faz é de puro prazer, um prazer alucinante. Sei bem, sei bem. Vai ficar assim por uma meia hora e eu não quero ficar assistindo isso. Carmina disse que ia na rodoviária, precisava arranjar algo pra comer, nosso dinheiro já acabou. Acho que vou dar uma passada lá, não tenho muito o que fazer e sinto falta de conversar com ela. Sempre que estou sozinho assim acabo pensando demais no futuro, e que sou da geração sem futuro. Sem futuro sim, não faço nada, saí da escola, larguei tudo pra morar e aprender a me virar. Tudo à prova! É assim que se vive, se colocando em extremos. Pelo menos eu acho que é assim... Passo sempre por momentos muito escrotos, mas e daí? Eu não me arrependo de nada do que fiz, sei que um dia farei algo grande, e estou seguindo no caminho certo, tenho certeza. “Carmina?” Ela se virou, assustada. “Puta que pariu, você me deu um susto, guri.” A voz afeminada, mas ainda assim grave. Eu rio, divertido, ela sempre me anima “E aí, minha bela transexual, como estás hoje?” Ela revira os olhos, para variar “Eu não sou transexual ainda, lembra? Ainda tenho um pinto.” Eu sempre esqueço dessa merda, mas tudo bem, não me importo porque para mim ela já é uma mulher, e sempre foi. “Tudo bem, tudo bem, perdão. Sabe, ando um pouco chateado.” Carmina consente, sorridente “Eu sei, tá se sentindo trocado, ahn?” Como? Trocado? “Ein?” “É, ué... A menina foi embora e você gosta dela...” “Ah.” Merda, odeio o fato de Carmina saber de tudo. “Não gosto não, ela era só mais uma bundinha bonita. Tenho a Benki, afinal.” Ela dá de ombros, rindo brincalhona... Odeio quando ela faz isso, dando um ar de superioridade, é detestável! Já falei pra ela, mas parece que não me escuta, porra. “Vai se foder! Você sabe muito bem que não me apaixono. Eu sou apaixonado pela causa, lembra? PELA CAUSA!” Ela riu ainda mais alto. “Ah, pobrezinho... Eu te disse, lembra? Um dia se renderia aos encantos do amor. Se não fosse por mim, seria por outra mulher.” “Cala a boca, Carmina, vai chupar uma rola!” Saio puto da vida, odeio quando ela faz isso, só deu tempo de ouví-la gritando “Vou fazer exatamente isso, NÃO SE PREOCUPE, MEU BEM!” Filha da puta! FILHA DUMA PUTA! É o que ela é, por isso que virou puta também. Não estou chorando, não estou. Eu vou ser alguém ainda, vou conseguir mudar essa bosta, todo mundo vai ver! Não me apaixono, nunca me deixei levar por uma coisa tão estúpida e não deixarei agora. Benki é só divertimento e Ani... Bem, Ani é só mais uma bobinha que achei que acreditava no mesmo que eu, mas estava enganado. Burguesinha mimada do caralho, isso sim. O jeito agora é ler um pouco mais e esperar Carmina-linda voltar com o dinheiro do rabo, estou precisando de cigarro e o meu acabou ontem... Não me aguento, não aguento isso, não aguento mais não fazer nada, tá na hora de começar a revolta.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

14 de fevereiro de 2009 – 14h01min.


Eu e Remo voltamos a nos falar direito, o que é bom sim, bastante. Tenho evitado contato visual com Ani desde que fiquei sabendo que ela tinha terminado com ele. Não quero encrenca, e estou feliz com meu amigo... Mas falta sim, eu não me sinto bem de verdade e, sei lá, eu acho ela uma gracinha. Mas não, agora estou com a Benki... Beijo, abraço, faço cafuné e transo quando quero. Ela é fofa também, só é difícil quando ela bebe, o que não é raro. A gente tá com oito garrafas de vodka roubadas, bebendo com amor. É, sim sim, com amor... Beber deixa todo mundo meio amoroso. Até mesmo os que ficam violentos, é uma violência apaixonada. Estamos rindo, menos Ani, reparei que ela tá meio pra baixo. Isso não importa muito, né? Não pra mim... Pelo menos não devia. O Japa tá no meio da roda, mais bêbado que os outros. “THIRSTY AND MISERABLE ALWAYS WANTING MOOORE” ele grita, numa voz forçada. “Olha só, olha só, sou o Cadena!” e voltava a cantar terrivelmente mal. “HAHAHAHAHA, Acho que aí era o Reyes, não?” ouvi o Remo dizendo, Japa deu de ombros e cantava mais, batendo cabeça e pulando no meio da roda. Eu levantei e fui pular com ele. A gente se batia, cotovelada e joelhada, só de brincadeira mesmo, tava divertido. Subiram mais o Remo, o Pepê e o Koda, todo mundo se batendo loucamente enquanto cantava sem instrumentos de fundo músicas aleatórias do Black Flag, Against Me!, Sin Dios e Adolescents. É bom o suor escorrendo. Choveu muito nos últimos dois dias, mas hoje ainda não caiu uma gota, pelo menos não na Esplanada. As meninas riam loucamente, e os que passavam por ali estranhavam e ameaçavam chamar os porcos. Ah, malditos... Ninguém aqui precisava de problema com a polícia, sabe? Paramos depois de dois minutos, todos rindo e caindo no chão, com a anarquia ainda fluindo. Dei mais uns goles e de repente uma voz atrás de mim “Mônica?” Ani estava encarando quem quer que tenha dito isso, meio estática. Olhei para trás e tinha um cara alto, meio magro assim, cabelo pintado e tatuagens na perna e nos braços. “Você deve estar me confundindo com alguém.” O cara lá riu e balançou a cabeça “Nah, é você sim, Mônica. Sumiu, ein?” Eu não tava entendendo porra nenhuma, levantei e fiquei de frente para ele, mais ou menos da minha altura. “Cara, não tá vendo que não é ela? Sai daqui, porra, não enche.” Ele simplesmente se desviou de mim e foi até ela “Ô garota, você é idiota?” Deu um chute de leve nela, pra chamar a atenção... Ani levantou de súbito, meio puta da vida. “Olha aqui, Mateus, vai embora, tá? Isso não tem nada a ver contigo.” Ele riu, riu de tipo deboche mesmo. “Ai ai, coisa, foi porque não te comi?” Vi as bochechas da pequena ficando vermelhas e ela puxou o cara pelo braço. Remo me encarava, parecia um pouco atacado com alguma atitude minha, só percebi que ele estava de pé também quando Ani e seu amiguinho se afastaram. O cara parecia implicar com ela de alguma forma, debochando, ela agora parecia rir... Os dois foram se afastando. Coisa esquisita, estranha mesmo. Mônica? Koda começou a rir, aquela figura estranha de cabelo azul, o rosto redondo ficava vermelho quando ele ria... É algo engraçado de se ver, comecei a rir por isso. “MÔNICA? HAHAHAH O nome da Ani é Mônica?!” Ele ria de rolar no chão, aquele chão imundo. Benki ria deliberadamente também, demonstrando o quanto não gostava de Ani – ou melhor, Mônica. “Cara...” eu rio também, não sei, é engraçado mesmo. Nunca conseguiria imaginar que o nome dela fosse Mônica! Remo se retirou, meio emputecido. Não entendi. Achei melhor não o seguir. Estamos rindo aqui agora: Eu, Benki, Koda, Pepê, Japa e Carmina. Essa última apenas sorria divertida, como se soubesse mais que a gente.

domingo, 3 de junho de 2012

11 de fevereiro de 2009 – 09h22min.

Benki está deitada aqui, ao meu lado, sorrindo como boba enquanto eu acaricio seus cabelos coloridos. Ontem eu decidi que não deixaria Ani interferir na minha vida, porque eu a conheço há pouco mais de um mês e ela já conseguiu me afastar do meu melhor amigo. Quando cheguei ontem na nossa “casa”, Benki estava chorando como um bebê, abraçada num ursinho de pelúcia que ela trouxe com ela quando apareceu por aqui. Ela disse que tinha muita saudade dos pais dela e do irmãozinho, que depois do acidente ela largou tudo para não ter que lembrar deles, só tinha trazido o ursinho porque era do irmão e quando ele tinha três anos falou pra ela que era pra ela cuidar pra sempre do Lupito (o nome do ursinho). Eu a abracei, beijei sua testa, depois sua bochecha... Acabamos nos beijando e depois fazendo o que os românticos chamam de “amor”. O sexo em si foi bom, foi sim. Ela parecia querer isso há tempos, ou ela queria apenas um pouco do meu carinho que eu nunca quis dar. Só era estranho porque estando assim com ela, fazendo carinho, eu só conseguia lembrar daquele beijo que Ani me deu três dias atrás. “Tenho que levantar.” Minha cabeça dói um pouco, levanto um pouco cambaleante e sorrio para Benki, curvando-me para dar-lhe um beijo. Ela sorri e volta a dormir, e eu vou andando em direção à Catedral, obviamente. No meio do caminho deparo-me com Remo, sentado meio escondido ao lado do Museu. “Cara, você tá bem?” Pergunto aproximando-me um tanto preocupado, ele tá com uma cara meio lerda, bem jogado assim, o braço estendido e uma agulha enfiada na veia. “E aí, cara...” Ele me responde, bem mansinho. Remo se pica tem uns cinco meses, ele diz que o pico é melhor que fumar crack. Eu concordo, não detona os neurônios tão rápido, só que é mais caro assim, ele tem que fazer uns esquemas pra conseguir a grana. Quando eu cheirava (porque eu piquei uma vez só, depois só cheirei) fazia os esquemas também. A Carmina vai com ele, ela que nos arranjou pro trampo na época. Trampo pesado mesmo, saca? “Remo, vei, você tem que largar essa vida, na boa...” Ele só se ajeitou um pouco, tirando a agulha e dobrando o braço, tombando a cabeça pro outro lado e agora diz, murcho de tudo, “Só fico bem assim, cara, vem aqui, senta comigo um pouco...” Daqui a pouco ele levanta e parte pra outra, pra ele é bom, faz bem, né? “A Ani terminou comigo, cara...” Isso foi um toque meio forte, saca? Olhei para ele, ele riu. “Mano, nem deu tempo de comer aquela bundinha.” Eu ri com ele, mas sei que ele não é assim, só fala pra zoar comigo, pra se fingir de quem está bem. Ele tá triste mesmo, mesmo. Sentimental demais, é difícil pro Remo aguentar essas coisas. Mas ele supera... “Estou indo lá pra Catedral, bora?” Ele fez que sim com a cabeça e se levantou, pronto pra outra. “Bora sim.” O braço apoiado no meu ombro, quase um abraço, e a gente vai. Eu me sinto meio errado com ele, meio culpado, eu que o trouxe junto quando fugi de casa. Bem de início éramos só eu e ele... Um mundo de brigas e revoluções da cabeça, lendo sobre anarquismo feito loucos, largamos a escola com treze anos, fugindo de casa. Éramos além da idade. Não dá nem pra acreditar que moramos na rua tem sete anos. Pra comer a gente fazia a volta da Rodoviária, era triste, saíamos chorando quase sempre, com três reais por volta. Três reais dos pedo... Mas a gente continuou firme, tínhamos um ao outro e era isso aí. A culpa é minha, é sim, eu não deveria tê-lo trazido junto. Briguei tanto com ele, já ficamos sem nos falar por quatro meses uma época, voltamos depois de conhecer a coca. Sorriso cúmplice da droga. Agora estamos na Catedral, como há sete anos, ajoelhados e rezando, ele chora, eu choro junto. É tudo uma grande merda, né?

quinta-feira, 31 de maio de 2012

10 de fevereiro de 2009 – 16h05min.


Os últimos dois dias têm sido realmente muito estranhos. Tenho andado mais com a Benki, resolvi dar uma chance a ela, não sei. Depois daquilo com a Ani, eu não consigo olhar muito na cara do Remo, ele sempre abraça ela na minha frente, beija aquela boquinha vermelha... Não, não, eu não gosto muito de ficar perto dos dois. O problema é que essa menina sempre vem atrás de mim quando saio sozinho para minhas leituras. É, eu leio bastante, leio sobre muitas coisas mesmo... Mas principalmente sobre ensaios anarquistas. Ah! Enfim. O caso é que ela sempre vem atrás, pega um caminho diferente e se encontra comigo. E agora eu estou aqui, atrás do Ministério da Cultura, lendo “Deus e o Estado” de Bakunin. Engraçada essa ideia toda, sabe? Deus e Estado como duas entidades que nos privam da liberdade. Deus não era justamente o ser libertador? Eu acredito em Deus, acredito nesse ser onipotente, onipresente e onisciente que está em tudo e todos, não acredito é na Igreja. De qualquer forma, a visão de Bakunin interessou-me bastante, e cá estou eu. “O que está lendo?” perguntou aquela voz já conhecida, aninhando-se no meu ouvido, na minha mente. “Não te interessa.” Eu sou meio bruto, sou sim... Mas sabe? É meio irritante você estar lendo e vir alguém te encher o saco, ainda mais nessa situação específica em que me meteram sem eu querer. “Se não interessasse eu não estaria perguntan...” “Caralho, guria, sai daqui, por favor?” Quase jogo o livro na cabeça da Ani, não quero problemas, não mesmo, principalmente com o Remo. Ela agora está me encarando, parece meio triste, estou começando a me sentir culpado... Ah, filha da puta! Odeio quem faz essa carinha de cachorro sem dono. “Não vou cair nessa...” Falei, e ela ficando manhosa, começando a sorrir de lado e, pra variar, chegando mais perto. A menina é toda sapeca mesmo, uma menininha. “Quantos anos você tem, criatura?” “Dezoito.” Eu não acreditei nela, ri bem irônico e perguntei de novo “Quantos anos você tem?” “Quinze...” Eu ri de novo “Como uma menina dessa idade acha que pode me manipular desse jeito?” Ela estranhou e já foi pra trás, cruzando os braços “Como assim?” Eu levantei agora, tou bem puto mesmo, quem ela pensa que é? Ela não pode agir assim comigo! “Sério, vai embora! Eu não te aguento mais! Se gosta de mim, por que não tá comigo? Por que tá com o Remo?” Ela me olha, meio impressionada, como se nunca esperasse ouvir isso de mim, e agora se levanta também. Pequenininha, bate no meu peito. “Porque... Porque nada me garante que se eu largá-lo, você vai ficar comigo. E eu gosto dele! Gosto muito mesmo... Eu sei que sou sua, mas eu gosto muito dele. Entende?” O ódio está subindo agora, meu punho está clamando para socar alguma coisa, e como não fui educado para bater em garotas, soco a parede. “Não entendo porra nenhuma.” Vou pra Catedral, ficar aqui discutindo merda com essa coisinha não vai adiantar nada, e eu posso muito bem esquecer tudo, ficar quieto no meu canto. Não é? Ainda ouço ela gritar meu nome, mas não ligo! Quero esquecer... Não quero isso agora, não mesmo. Estou pensando em coisas mais importantes, uma revolução! Mas uma revolução que dê certo, que fique pra história como o início do Anarquismo! Vou orar um pouco, apesar de não acreditar na Igreja, estar lá me dá uma energia positiva, não preciso de missa nem nada, só do lugar. Do lugar e da minha fé, que para quem vê de fora não existe, mas é grande, e eu sei que se Deus está lá vai perceber que a humanidade dessa sociedade poderia ser muito maior num meio mais natural, num meio sem Estado, sem poder.

domingo, 27 de maio de 2012

8 de fevereiro de 2009 – 02h49min.


Estou realmente indignado. Aqueles dois socos do Remo foram completamente desnecessários! Quero dizer, eu não fiz nada de errado, fiz? Minha cabeça está doendo um pouco agora, nunca apanhei sem reagir, nem de um amigo. Eu fiquei sem reação, sabe? Foi por isso. Estou sentado num banquinho aqui, entre o Museu e a BNB, olhando pra rua. De vez em quando passam uns carros ainda, em pleno domingo... Não está chovendo, mas tá tudo molhado por aqui. Acho que todos já foram dormir, amanhã será um dia meio foda pra gente. Ainda temos 160 pila, mas sei lá, eu sei que vai acabar rápido. O dinheiro ficou com a Carmina, que é a mais responsável e nunca perde nada importante. “Oi...” Odeio quando alguém fala comigo do nada. Ani sentou-se ao meu lado, pousando as mãos nos joelhos. Estou puto com ela, estou sim. O que diabos ela tá fazendo aqui? “O que você quer?” Olhar pro nada é melhor nessas horas, consigo me controlar melhor do que se olhasse para ela. Ela não fala nada, mas sinto que ela me observa. Porra, cara, eu odeio isso, sinto um puta incômodo, sabe? Chuto uma pedrinha, olho pro céu, pro lado oposto... Ela não fala porra nenhuma. Está começando a ficar quente, já tirei até a minha jaqueta. É, eu, coisa esquelética, com uma calça toda rasgada de 5 anos de uso e minha camiseta toda furada dos Pistols. A gente compra roupa no Conic, quando a grana vem... Só tenho camiseta de banda, e a maioria tá estragada. Eu sou o típico punk, mesmo mesmo. Por isso olham torto pra mim. Até parece que vou esfaquear alguém na rua. De qualquer forma, ela ainda me encara, e não consigo mais tentar desviar a atenção, agora estou olhando pra ela também. “O que é?” Nada, ela só olha nos meus olhos, parece perdida... Eu estou perdido, estou me perdendo. Olhos castanhos, um pouco duros, mas de alguém que foi bem cuidada. Olhos sem muita dor física, porém com uma grande carga de sofrimento emocional... Sofrimento criado por ela. Ani está mais próxima, eu consigo sentir a respiração dela. Um beijo. Estou em choque, não consigo me mexer. Meus olhos ainda estão arregalados, e as mãos dela estão segurando meu rosto enquanto ela beija minha boca freneticamente. Parece que ela estava querendo isso há tempos. O choque inicial passou e eu a empurrei, estou constrangido, puto da vida, nervoso, enojado, totalmente nas nuvens... O que foi isso? Não sei nem o que sinto direito, só sei que tá errado. “Você é do Remo...” Ela sorriu, levantando-se, essa menina pequena, de cabelos escuros, essa menininha sorriu, no jeito mais sapeca de menina. “Eu sou de quem quero ser, e dentro de mim eu sou sua.” Mas o quê? Qual o problema dessa garota?? Ela está indo agora, indo embora, de volta para os braços do meu melhor amigo, enquanto eu estou aqui, sem entender PORCARIA NENHUMA. Velho, mas que porra?!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

7 de fevereiro de 2009 – 23h57min.


Não sei, não estou me sentindo muito bem. Benki está aqui me enchendo o saco “Olha ali, o Remo e a Ani estão apaixonados.” Menina implicante da porra, agora fica me beijando o pescoço, me abraçando, mordendo minha orelha. “Caralho, me larga!” Eu gosto da Benki e tudo, ela é uma boa pessoa, mas tem hora também que irrita, cara. Impressionante! Estou sentado aqui, encostado na parede curva do Museu Nacional, observando os mais novos pombinhos de longe. Remo e Ani estão correndo na chuva, rindo e se divertindo. Volta e meia ele a agarra por trás pra dar um beijo nela... Não sei, não sei, isso é enjoativo. Dá nojo mesmo, sabe? Como alguém pode estar assim, tão feliz, quando temos que lutar por coisas muito mais importantes? Tipo importantes, importantes mesmo! Estou puto agora, de verdade. Me larguei da Benki e estou indo até eles, é sim, não ligo. “Remo!” Dei um soco no braço dele, pra chamar a atenção, ele virou com tudo e socou meu olho. COMO ASSIM? Que porra foi essa, cara?? “Caralho, mano, que isso?!” Levantei meio zonzo, não tou entendendo nada mesmo! “Mereceu, seu viado de merda! Não tira o olho da gente, parece que tá agourando, porra.” O que ele tá falando, velho? “Ahn? Eu só vim dizer que preciso falar contigo...” a Ani parece meio assustada, o cabelo todo bagunçado, ela está toda molhada. É linda, linda mesmo... Não sei, eu já tinha reparado que ela é bonitinha, mas ela assim, um mês mais vivida, desarrumada, me pareceu realmente linda. De repente outro soco, agora na boca. “PORRA REMO, TÁ LOUCÃO?” Minha boca tá sangrando, acho que quebrou um dente, tá doendo pra caralho. Filho da puta, pra que foi isso? Cambaleei, sem reação. “TIRA O OLHO DELA, OK? DEIXA A GENTE, TÁ? Você não é feliz porque não quer, mas deixa a gente ser.” O tom de voz dele foi graduando, cada vez mais baixo e ameaçador... Nunca tinha visto ele assim. Ele a abraçou e os dois foram para o lado oposto, caminhando meio alterados... Conheço o Remo, ele não é assim, deve ter bebido demais. Sim, sim, quando bebe ele fica muito extremista, deve ter sido isso. Ani virou agora, está me olhando com uma expressão de quem pede desculpas. Eu não a desculpo, não mesmo, ela pode até ter ajudado a gente hoje, mas está causando o caos e não é de hoje.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

7 de fevereiro de 2009 – 13h22min.


Hora do almoço! Estou morrendo de fome, quase não me aguento em pé. Já estou puto mesmo, meu estômago está se desdobrando dentro de mim, e ainda vem aquela filha da puta da Benki e acaba com a comida! “Não fode, Benki, além de você me acordar cedo pra caralho com essa baitolagem de carinho, ainda comeu todo o pão!” Eu xingo mesmo, não tou nem aí, ela fechou a cara e foi chorar no colo da Carmina. Aqui tá cheio daqueles skatistas calçando aqueles tênis largos, não entendo esses caras. O Remo tá dizendo que os bichos são cheios da grana, na mochila deve ter algum dinheiro ou sei lá. “Bora roubar, cara... Nem vai dar nada e estamos morrendo de fome, só precisamos descolar um beijinho da doce pecúnia.” Tá certo, tá certo, eles largaram as mochilas embaixo da rampa do Museu, pegar alguma coisa não seria difícil. Estranho que a Ani tá lá, mexendo nas mochilas também. Engraçado vê-la com aquela calça jeans toda rasgada, um coturninho de madame e a camiseta do Dead Kennedys, parece uma criança brincando de ser forte. Ela agora tá correndo pra gente, tirando alguma coisa do bolso. Dinheiro, dinheiro, dinheiro! “Quanto tem aí?” o Remo perguntou, envolvendo o ombro dela com o braço. Hm... Não que eu tenha ciúmes, ela não é nada minha, mas eu tou meio puto, não é hora de demonstração de afeto quando se precisa de comida, né? “Umas cem pila, esses caras dão muito mole.” Agora sim eu sei porque essa garota apareceu! Salvando a gente, ninguém nunca desconfia de uma menininha, né? Roubo feito, agora só correr e comer alguma coisa na rodoviária. Bom que é barato e sobra pra outros dias. Por isso que digo, se o mundo fosse mais igual, se todo mundo vivesse sem essa merda desse dinheiro, não precisaria roubar, nem matar, nem nada... É pura autodisciplina, né? Nego não aprende, a gente tá tentando sobreviver. Isso, é sim, sobreviver. E agora enquanto a gente come, sentados no chão sujo da rodoviária, o Remo tá de gracinha com a Ani, só porque ela fez o trabalho sujo. O pior é que acho que ela está curtindo. “Porra, Benki, me larga!” E ainda mais essa.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

4 de janeiro de 2009 – 03h38min.


Algum filho da puta socou meu olho, tá roxo de não abrir! Não sei se foi na roda punk ou quando chegou a polícia, sei que essa merda está latejando agora que o efeito do álcool está passando. Bebi umas duas garrafas de vodka pura, porque misturar com energético é coisa de mauricinho e aqui a gente luta até nisso. Saímos corridos do Conic, agora estamos no eixão... Meu, foi uma puta confusão mesmo! Os polícia chegaram metendo bala de festim mesmo, tavam nem aí pro cidadão. Ainda tou meio chapado, mas na hora estava louco mesmo de bêbado, fui bater no fardado, não liguei não. Cheguei com o punho fechado na cara do porco, daí ele desceu o cassetete em mim. Quando consegui levantar fugi na correria, só tive tempo pra ver aquela Ani preocupada tentando se esconder. Não tive dúvidas na hora, puxei ela pelo braço e saímos pra onde eu sabia que minha ‘família’ estaria. Foi só a gente se ver que decidimos o destino: eixão norte, a pé. Demorou bem umas duas horas pra chegar lá, mas não tínhamos mesmo nada melhor pra fazer, um bando de punk bêbado chapado... Sem contar que eu senti o Pirraça alucinando na cocaína, isso seria divertido. A menina nova estava mesmo assustada, e com frio. A chuva tava bem forte e a essa hora não passava mais carro, principalmente por ser domingo. Fui dar meu grito de loucura, minha vontade de viver naquele berro eloquente... “POOOOOOOOOOOOOORRAAAAAAAAAAAAAAAA”, correndo como um idiota corre. O olho esquerdo inchado, os amigos caindo na gargalhada. É assim, né? A vida é uma merda! Papo de bêbado? Eu estou bêbado, bêbado pra caralho! Passou um carro, aliás. O cara devia estar mais chapado que a gente, porque deu um cavalo de pau e acelerou pra atropelar o, como ele disse, ‘grupo de desajustados’. Não estou vendo direito, ainda mais nessa chuva, meus pés criaram asas e eu corri pra salvar meu grito de vida. Acabou, acabou, passou. Estamos os oito na grama, rindo, o cara foi embora. Foi mais rápido do que imaginei que seria. Só a Ani está séria, quase chorando. “Oras, relaxe, relaxe”... Eu disse agora me inclinando para beijar-lhe a boca vermelha, e sou empurrado com veemência. Uma garrafa foi quebrada a poucos metros, Benki parece indignada. Ah, mas que porra, estou mesmo muito bêbado, entendendo nada.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

3 de janeiro de 2009 – 23h15min.


Engraçada a garotinha, devia ter seus quinze ou dezesseis anos, talvez dezessete. Faz tempo que não me importo mais com a idade das pessoas que me cercam, é tudo gente, né? Tinha belos lábios, tinha sim. Ela me deu uma patada tão foda que achei melhor sair de perto... “Sei me virar, sai daqui seu dorme-sujo de merda”. Como se agora ela também não fosse uma ‘dorme-suja’, mimadinha. Saí mesmo, voltei pro meu abrigo embaixo da BNB e quem foi lá acolher a novata foi a Carmina, nossa transexual. Nosso grupo tem sete pessoas, né? Agora oito. A gente mora na rua desde que se fez pensante, um bando de anarquistas desvairados, e hoje é a noite dos punks no Conic. ‘O Conic tem de tudo’, dizem. E tem mesmo. Como eu disse, hoje é a noite dos punks no Conic. Vai tocar um grupo novo, que de certo não fará sucesso e acabará como nós. Mas é noite de bater cabeça e pular na roda de pogo, bater na rodinha punk. A música começa em dois minutos, a menininha nova veio com a gente, aquela Ani. Parece retraída, mas não quis ficar sozinha, o que é racional. Estou fumando meu baseado de ‘dorme-sujo’ e bebendo minha Natasha roubada. A Benki ainda não me larga, e agora reclama que se era pra roubar, eu devia ter roubado uma Absolut, mas não sou tão pretensioso. Essa menina não para de beijar meu pescoço, já está me irritando, e eu não aguento mais! Ainda bem que a música começou... Acabei de entregar a garrafa pra ela, o baseado pro Remo e estou indo pro meio da multidão. Adoro a adrenalina dessa loucura toda, soco e cotovelada pra tudo quanto é lado, a música gritando liberdade. Isso é felicidade, isso sim, isso sim. 

sábado, 12 de maio de 2012

3 de janeiro de 2009 – 10h02min.


Por que a Benki não me larga? Essa menina apareceu tem uns dois meses, e não me solta de forma alguma! Aqui cada um tem um apelido, ela é a Benki porque no início quando dizia “vem aqui” para alguém (no caso, quase sempre, para mim), fazia uma vozinha irritante, manhosa e acabava dizendo “bemquí”. Então a chamamos de Benki. A Carmina diz que a garota se apaixonou por mim, bobagem! É só um encanto idiota, porque não dou bola. Acho que é isso. A gente tá de boa hoje, embaixo da Biblioteca Nacional porque está chovendo muito. Brasília em janeiro, não tem como ser muito diferente. Estou limpo há um ano. É sério, sério mesmo! Não lembro a data exata, mas não importa. Agora só fumo cigarro, um baseado de vez em quando, e bebo. Drogas pesadas não mais. Tem uma garota andando lá longe, sozinha. Ela parece estar chorando, não sei. Sentou agora num banco, no meio da chuva. O Remo tá me dizendo que ela parece ter fugido de casa. Acho que vou lá, dar um susto na garota. Deve estar esperando o papai, quem sabe ganho uns trocados. Corri e agora estou sentado ao seu lado, ela parece desconfiada. Ani é o seu nome.